Publicado em 09/01/2018 17h15
BC baixa juros, mas fica em recuperação
Banco Central perdeu a corrida para a queda da inflação
Jornal do Brasil
No Boletim Focus, que o Banco Central distribuiu hoje, com as previsões de 100 instituições financeiras, consultorias e institutos de pesquisa, o presidente Ilan Goldfajn, no comando do Banco desde julho de 2016, está levando notas baixas. A taxa de juros básica (Selic) baixou 50,8%, declinando de 14,25% para 7% ao ano. Mas a inflação, que estava em 8,74% quando Ilan assumiu (e em 9,32% quando Temer substituiu a ex-presidente Dilma), caiu bem mais: 68% se fechar o ano em 2,79%, como aposta a média do mercado, ou até 69% como estima o Departamento Econômico do Bradesco, que espera um IPCA de apenas 0,23% em dezembro, fazendo a taxa anual cair para 2,70%, o menor índice desde os 2,24% de fevereiro de 1999.
O Banco Central parece que está saindo bem na foto. Afinal, a inflação está baixa. Mas a verdade é que está baixa até demais e os oito diretores do BC e o presidente que integram o Comitê de Política Monetária (Copom) não perceberam que a velocidade de queda da inflação se desenhava mais rápida que a corrida do BC para reduzir os juros. Como a inflação, empurrada para baixo pela supersafra de alimentos (queda de mais de 5% no ano), estava sempre à frente do BC, por mais que os juros tenham caído, o BC produziu um paradoxo.
O juro real básico fechou o ano no menor nível histórico (embora ainda dos mais altos do mundo), mas o mérito não foi do Banco Central. A queda superou todas as previsões milimétricas dos sábios do Copom. Nesta quarta-feira, quando o IBGE divulgar o número final, saberemos de quanto foi o erro do BC (para passar de ano, a inflação, cujo centro da meta era de 4,25%, tinha de ficar em 3%). Por isso, para justificar seu erro, o presidente do Banco Central terá de escrever carta ao ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, justificando a falha. Dirão os puristas: “menos mal que agora o erro não foi o estouro da inflação”, como ocorreu em outros anos (em 2015 a inflação foi de 10,67%, puxada pela alta de 18,08% dos preços administrados pelo governo, que ficaram congelados para garantir a reeleição de Dilma).
A questão é que se os preços caíram mais do que os juros, houve sacrifício extra da sociedade. Com juros menores, a reação da economia teria vindo antes (o Bradesco estima alta do PIB de 1,1% em 2017, contra 1,01% da média do mercado). E a agonia do desemprego teria sido um pouco abreviada. Em outras palavras, porque não soube prever adequadamente os cenários, o BC fez o país sofrer mais e os bancos lucrarem mais. O BC já se comprometeu a estudar melhor o impacto dos preços dos alimentos na formação dos índices e, muito importante, nas expectativas. O mesmo fará em relação às tarifas de energia e combustíveis, que assombraram a população no final do ano passado. O BC já se declarou em 2ª época…
Mas, para não dizer que foi um aluno relapso (sua complacência para com os exorbitantes juros bancários o desabona), vale destacar o grande feito da gestão Ilan Goldfajn: o desarme da bomba dos swaps cambiais. Quando a economia entrou em parafuso no 2º governo Dilma, quando tarifas públicas e o câmbio foram reajustados, após prolongado e artificial congelamento, restou ao BC fazer operações de swaps cambiais para tentar controlar expectativas. Vale dizer que a posição assumida em final de 2014 era de R$ 284,9 bilhões, saltou para R$ 426,7 bilhões em dezembro de 2015, e já tinha caído para R$ 237 bilhões em abril de 2016, último mês fechado da gestão Dilma. Em maio, a posição murchara para R$ 221,4 bilhões e encolheu para R$ 85,5 bilhões em dezembro de 2016. Em dezembro último deve ter fechado ao redor de R$ 80 bilhões. Uma queda 64% na gestão de Ilan Godfajn, com o dólar se comportando sem sustos. É claro que a recessão ajudou a produzir o maior superávit da história na balança comercial: US$ 67 bilhões, com crescimento de 18,5% nas exportações e apenas 10,5% nas importações.
O desafio do BC é que agora, no ano eleitoral de 2018, não haverá surpersafra para baixar preços. E a margem de erro do BC ficou mais estreita e sem atenuantes… A propósito de reajuste de combustíveis, a Petrobras não podia ter ido do 8 ao 80. Congelamento quase total na gestão Lula e Dilma, que descapitalizou a companhia já onerada pelos desvios e superfaturamentos de projetos mal conduzidos, detectados na Lava-Jato. Mas seguir as cotações diárias dos mercados do Hemisfério Norte que usam os combustíveis para o aquecimento no mais rigoroso inverno, parece despautério num país tropical em pleno verão…




















