O Banco Central vai divulgar, no final de setembro, as regras de funcionamento do Pix parcelado, modalidade que permitirá dividir compras em prestações pelo sistema de pagamento instantâneo. Segundo a instituição, a medida busca padronizar o serviço, uniformizar a experiência do usuário, garantir transparência, ampliar o acesso e incentivar o uso consciente do crédito.
O anúncio, no entanto, acontece em um momento de tensão com os Estados Unidos. No início de julho, o presidente Donald Trump apresentou um documento acusando o Brasil de práticas comerciais desleais. A denúncia levou o Escritório do Representante de Comércio dos EUA a abrir uma investigação. O relatório não cita o Pix nominalmente, mas faz referência a sistemas de pagamento eletrônico criados por órgãos públicos, o que inclui o modelo brasileiro.
De acordo com o documento, haveria vantagens indevidas concedidas pelo governo brasileiro a serviços como o Pix, prejudicando empresas americanas do setor de cartões e meios de pagamento.
Especialistas divergem sobre impacto
Para o professor de relações internacionais e cientista político Maurício Santoro, o Pix é uma história de sucesso que se consolidou como o principal meio de pagamento no país. Ele avalia que a perda de mercado das operadoras americanas de cartões de crédito tende a se intensificar com a chegada do Pix parcelado.
“Essa expansão prejudicou os interesses das grandes operadoras, mas eu classificaria o Pix como um tema secundário nas disputas entre Brasil e EUA. Questões como o processo contra Bolsonaro, a regulação das redes sociais e as movimentações do Brics têm muito mais peso”, afirma.
Na mesma linha, o economista André Braz, da FGV Ibre, destaca que a evolução tecnológica do setor financeiro é inevitável e vê no Pix um salto de modernização. Para ele, a modalidade parcelada pode democratizar o acesso ao crédito, principalmente para consumidores sem cartão ou limite disponível.
“O vendedor recebe o valor integral à vista, enquanto o comprador pode parcelar. É um modelo atraente para o comércio e competitivo frente aos cartões de crédito. Isso obriga as operadoras a se reinventarem”, explica.
Riscos de endividamento
Apesar das vantagens, Braz alerta para o risco de uso indiscriminado. “Parcelar no Pix é como contrair um empréstimo, com incidência de juros. Se usado de forma recorrente, pode levar ao endividamento das famílias, da mesma forma que o parcelamento em cartão”, pondera.
Reação política
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva também se posicionou diante das críticas de Trump. Em declarações recentes, ele chamou o Pix de “patrimônio nacional” e disse que os ataques refletem apenas a preocupação dos EUA com a perda de mercado das empresas de cartão.
“As alegações contra o Pix são descabidas. Gostaria que o presidente Trump experimentasse a tecnologia para ver como é moderna. A preocupação deles é que, se o Pix se espalhar pelo mundo, os cartões de crédito vão desaparecer”, afirmou Lula.
O Pix, lançado em 2020, se consolidou como o meio de pagamento mais utilizado no Brasil e deve ganhar um novo capítulo com a introdução da função parcelada, que promete ampliar o acesso ao crédito, mas também impõe desafios de regulação e educação financeira.