
Categoria cobra salários atrasados e ignora ordem judicial para retomada parcial do serviço
Campo Grande amanheceu sem transporte coletivo pelo quarto dia consecutivo nesta quinta-feira (17), após mais uma rodada sem acordo entre o Consórcio Guaicurus e os motoristas. A paralisação, considerada a maior da história da Capital, já soma 96 horas e mantém ônibus totalmente fora de circulação, afetando mais de 100 mil usuários por dia.
A continuidade da greve foi confirmada pelo STTCU-CG (Sindicato dos Trabalhadores em Transporte Coletivo Urbano de Campo Grande) na tarde de quarta-feira (16). Segundo os motoristas, não houve nova proposta nem indicativo de pagamento por parte das empresas, o que inviabilizou qualquer possibilidade de retorno ao trabalho.
A categoria cobra o pagamento integral do salário de novembro — apenas 50% foi depositado —, a garantia da segunda parcela do 13º salário até o dia 19 e o adiantamento salarial previsto para o dia 20, todos de uma só vez. Sem avanços, o movimento segue por tempo indeterminado.
Com o descumprimento das decisões judiciais que determinavam a circulação mínima de ônibus, o sindicato já acumula R$ 520 mil em multas, aplicadas pelo Tribunal Regional do Trabalho da 24ª Região (TRT-24). Em audiência de conciliação, encerrada sem acordo, o desembargador César Palumbo determinou um escalonamento do serviço, com até 70% da frota nos horários de pico, sob pena de multa diária de R$ 200 mil. A proposta foi rejeitada em assembleia pela maioria dos motoristas.
Crise e troca de acusações
O Consórcio Guaicurus afirma enfrentar uma crise financeira causada pela inadimplência do poder público, envolvendo repasses de vale-transporte, subsídios e outros componentes tarifários. A Prefeitura de Campo Grande, por outro lado, nega qualquer débito e divulgou uma tabela com os pagamentos realizados ao longo do ano, sustentando que está em dia com as obrigações.
Diante do impasse, o Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS) determinou a intervenção no contrato entre o município e o consórcio. A decisão aponta falhas na execução do serviço e omissão do poder público em corrigir problemas estruturais do transporte coletivo. A Agetran e a Agereg têm prazo de 30 dias para iniciar o processo, nomear um interventor e apresentar um plano de ação, sob pena de multa diária de R$ 300 mil.
Investigação e impacto econômico
O Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) instaurou um inquérito civil para apurar possíveis irregularidades na contratação do consórcio. O relatório final da CPI do Transporte, conduzida pela Câmara Municipal, apontou indícios de operações financeiras simuladas e pediu o indiciamento de diretores do consórcio e de gestores públicos por improbidade administrativa.
Enquanto isso, o impacto econômico se intensifica. Segundo a CDL de Campo Grande, cada dia de paralisação gera prejuízo estimado em R$ 10 milhões ao comércio, com o Centro da cidade esvaziado e queda no movimento de lojas e serviços. Mesmo diante das dificuldades, parte da população afirma apoiar a greve, atribuindo a crise à má gestão do sistema.
A última greve total registrada em Campo Grande havia ocorrido em 1994, quando o transporte ficou paralisado por três dias. Desta vez, porém, os trabalhadores decidiram manter o movimento mesmo diante de ordens judiciais, reforçando que só voltarão a operar após a regularização completa dos pagamentos atrasados.










