Manuscrito do Mar Morto tido como ilegível é decifrado após 70 anos; veja o que se sabe

4
Manuscritos foram produzidos pelos qumranitas, uma comunidade judaica que viveu na região há mais de dois mil anos FOto: Reprodução/X

Mais de sete décadas após a descoberta dos Manuscritos do Mar Morto, um pesquisador conseguiu decifrar um dos trechos considerados ilegíveis desde os anos 1950. Fragmentos conhecidos como manuscritos crípticos B, escritos em um alfabeto até então desconhecido, revelaram mensagens de caráter religioso ligadas ao fim dos tempos, ao julgamento divino e à esperança de restauração de Israel.

A decifração foi realizada por Emmanuel Oliveiro, pesquisador da Universidade de Groningen, na Holanda. Ele identificou que os sinais enigmáticos presentes nos fragmentos 4Q362 e 4Q363 correspondiam de forma consistente a letras do alfabeto hebraico. O trabalho levou cerca de dois meses, período muito inferior ao que se imaginava possível.

“Eu disse aos meus amigos e à minha esposa que ia tentar isso e eles disseram que eu poderia ficar preso por 40 anos e nunca conseguir decifrar o código”, relatou. “E o que você espera encontrar, afinal, uma receita secreta de falafel? Mas quando eu vi, acho que foi bem rápido.”

Os manuscritos crípticos B estavam entre os últimos textos não compreendidos do conjunto encontrado nas cavernas de Qumran, próximas ao Mar Morto. Extremamente danificados, os fragmentos foram escritos sobre couro que rachou, escureceu e se desfez ao longo dos séculos. As letras, feitas com tinta preta e canetas de ponta fina, apresentam traços irregulares, espaçamento inconsistente e correções visíveis, o que dificultou ainda mais a leitura.

Segundo Oliveiro, o alfabeto não era um sistema místico, mas uma cifra de substituição simples aplicada ao hebraico. “A mono-substituição é muito poderosa, mas a fraqueza da substituição simples é que uma linguagem possui padrões. Se você encontrar o padrão, você pode decifrar o código de substituição, que é o que eu fiz aqui”, explicou.

A tradução revelou referências diretas a temas bíblicos. Nos fragmentos aparecem nomes como Israel, Judá, Jacó e Elohim, termo usado para se referir a Deus. O fragmento 21 menciona Elohim e a glória divina, enquanto o fragmento 18 cita as tendas de Jacó. A linguagem e os temas dialogam com passagens de livros proféticos como Jeremias e Malaquias, que tratam de julgamento, punição e posterior restauração de Israel.

Embora os textos não citem diretamente esses livros, Oliveiro afirma que há clara afinidade temática. Em Jeremias, a restauração de Israel é prometida após o julgamento, com a reconstrução das cidades e a recuperação da sorte do povo. Já em Malaquias, há advertências contra o adultério e a ênfase na fidelidade à comunidade hebraica.

Os fragmentos também mencionam datas e governantes, com referências ao segundo ano e ao quinto mês, seguindo convenções conhecidas de textos bíblicos e proféticos. Em 4Q362, aparece ainda a menção a uma sepultura misteriosa. No fragmento 14, a palavra traduzida como sinalização também pode significar lápide, o que sugere uma possível conexão funerária ainda não esclarecida.

O segundo manuscrito, 4Q363, apresentou maiores dificuldades. Uma frase se repete, mas a tradução não permite afirmar se o texto se refere a filhas ou a aldeias. O nome Benayahu aparece no fragmento, mas sua ocorrência frequente em outros textos da época impede uma identificação precisa.

Os manuscritos foram produzidos pelos qumranitas, uma comunidade judaica que viveu na região há mais de dois mil anos. O grupo era conhecido por preservar textos religiosos e seus escritos ajudam a compreender crenças judaicas, práticas rituais, tradições proféticas e possíveis vínculos com o cristianismo primitivo.

Oliveiro afirma que ainda não é possível determinar por que essas mensagens específicas foram codificadas. Uma das hipóteses é que o uso da cifra limitasse o acesso ao conteúdo. “Se você conseguisse ler, teria acesso a esses manuscritos e provavelmente pertencia a uma certa classe ou posição dentro dessa comunidade piedosa”, disse ao jornal Haaretz. Para ele, a variação deliberada das letras reforçava o caráter sagrado do texto, sem alterar seu significado.

Apesar de terem permanecido ilegíveis por séculos, os manuscritos crípticos B não escondiam mensagens secretas ou místicas. A complexidade estava na forma, não no conteúdo. Feitos para parecerem indecifráveis, acabaram preservando por dois milênios um testemunho religioso que agora volta a ser compreendido.

*Por R7.com