
Itália é vista como decisiva para formação de maioria qualificada no Conselho Europeu
A decisão que pode destravar um dos maiores acordos comerciais do mundo passa, nesta sexta-feira (9), por uma mesa de negociações em Bruxelas — e por um país específico. O Conselho da União Europeia se reúne para avaliar os próximos passos do tratado de livre comércio entre Mercosul e União Europeia, em um cenário em que o acordo pode avançar mesmo sem o apoio da França, desde que a Itália se alinhe ao grupo favorável.
Para que o tratado siga adiante nesta fase, é necessária maioria qualificada no Conselho, formada por pelo menos 15 dos 27 países do bloco, desde que representem 65% da população da União Europeia. Com cerca de 60 milhões de habitantes — aproximadamente 13% da população europeia —, a Itália passou a ser considerada decisiva para a formação desse apoio mínimo.
Caso o acordo seja aprovado pelo Conselho, o texto seguirá para o Parlamento Europeu, onde precisará do aval por maioria simples dos votos. A avaliação inicial é de que essa etapa tende a ser menos complexa, já que apenas alguns países manifestaram oposição pública ao tratado.
Entre os críticos estão França, Polônia e Irlanda. Juntos, esses países representam cerca de 25% da população da União Europeia, percentual insuficiente para bloquear uma decisão tomada por maioria qualificada. Na quinta-feira (8), o presidente francês Emmanuel Macron confirmou que a França votará contra o acordo, em meio a protestos de agricultores que bloquearam estradas de acesso a Paris e pontos turísticos, como o Arco do Triunfo.
Produtores franceses temem perda de competitividade dentro do bloco e aumento das importações agrícolas caso o acordo com o Mercosul seja firmado. Apesar disso, as resistências seguem concentradas em poucos países, o que deslocou o centro das articulações diplomáticas para a Itália.
A posição italiana oscilou ao longo das negociações em Bruxelas. Inicialmente favorável, Roma passou a apresentar novas exigências e chegou a sinalizar resistência ao texto, aumentando a incerteza sobre o desfecho. Nas últimas semanas, no entanto, representantes do setor agrícola italiano afirmaram que se consideram contemplados nos termos atualmente negociados.
Para reduzir objeções, a Comissão Europeia propôs antecipar 45 bilhões de euros em recursos para agricultores no próximo orçamento plurianual do bloco e aceitou reduzir tarifas de importação sobre alguns fertilizantes. As medidas foram interpretadas como um gesto para atrair países ainda reticentes ao acordo com o Mercosul.
A principal demanda restante da Itália está ligada ao mecanismo de salvaguarda do tratado. Atualmente, o acordo prevê que a União Europeia possa abrir uma investigação e suspender temporariamente preferências tarifárias quando as importações de produtos agrícolas sensíveis, como carne bovina e aves, aumentarem em média 8% ao longo de três anos. O governo italiano defende que esse gatilho seja reduzido para 5%.
Países de peso como Alemanha e Espanha se posicionam de forma favorável ao acordo, avaliando que o tratado amplia o acesso de suas indústrias e empresas de serviços a um mercado de mais de 280 milhões de consumidores nos países do Mercosul.
No governo brasileiro, o clima é de otimismo. Integrantes do Executivo avaliam que o Brasil cumpriu sua parte nas negociações e consideram naturais as resistências de agricultores europeus em acordos desse porte. A leitura diplomática é de que há sinais claros de que a Itália tende a votar a favor do tratado, o que pode abrir caminho para a assinatura do acordo nos próximos dias.



















