Orelhões começam a desaparecer das ruas do Brasil em 2026

35
Orelhões começam a ser retirados das ruas após décadas de uso

Anatel inicia retirada de telefones públicos após fim das concessões; ainda há 38 mil aparelhos no país

O som metálico da ficha caindo, a voz pedindo “ligação a cobrar” e a espera silenciosa dentro de uma cabine colorida estão prestes a virar memória definitiva. A partir de janeiro de 2026, os orelhões — telefones públicos que marcaram gerações e se tornaram um símbolo do Brasil — começam a ser retirados das ruas do país, encerrando oficialmente uma era da comunicação.

Segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), cerca de 38 mil aparelhos ainda permanecem espalhados pelo território nacional. Mais abaixo nesta reportagem, é possível conferir quantos orelhões ainda existem em cada município.

Quase indispensáveis até o início dos anos 2000, os telefones públicos se tornaram praticamente obsoletos com a popularização dos celulares. A retirada definitiva começa agora porque, em 2025, chegaram ao fim as concessões do serviço de telefonia fixa das cinco empresas responsáveis pela manutenção dos equipamentos.

Com o encerramento dos contratos, Algar, Claro, Oi, Sercomtel e Telefônica deixam de ter a obrigação legal de manter a infraestrutura de orelhões em funcionamento.

A desativação, no entanto, não ocorrerá de forma imediata em todo o país. A partir de janeiro, terá início a remoção em massa de carcaças e aparelhos já desativados. Os orelhões só devem ser mantidos em localidades onde não há cobertura de rede de celular — e apenas até 2028.

O processo de retirada vem acontecendo de forma gradual nos últimos anos. Dados da Anatel indicam que, em 2020, o Brasil ainda contava com cerca de 202 mil orelhões instalados em vias públicas.

Como contrapartida pelo fim do serviço, a agência reguladora determinou que as empresas redirecionem os recursos antes destinados aos telefones públicos para investimentos em banda larga e telefonia móvel, tecnologias que hoje concentram a maior parte da comunicação no país.

Atualmente, mais de 33 mil orelhões estão ativos, enquanto cerca de 4 mil permanecem em manutenção, segundo dados oficiais.

Ícone de uma geração

Durante décadas, os orelhões foram fundamentais para a comunicação dos brasileiros, principalmente entre os anos 1970 e o começo dos anos 2000. Eles possibilitaram contatos urgentes, ajudaram a criar histórias, funcionaram como pontos de encontro e, em muitos casos, eram a única forma de falar com alguém fora de casa.

Era dentro dessas cabines que muitos aguardavam, ansiosos, a autorização para completar a ligação a cobrar — até que a ficha caísse, literalmente.

Recentemente, o telefone público voltou a ganhar destaque entre as gerações mais jovens ao aparecer no cartaz do filme O Agente Secreto, vencedor do Globo de Ouro e indicado pelo Brasil ao Oscar 2026. Na imagem, o personagem Marcelo, interpretado por Wagner Moura, aparece dentro da cabine oval segurando um telefone público.

Design brasileiro reconhecido no mundo

O orelhão surgiu em 1971, criado pela arquiteta sino-brasileira Chu Ming Silveira. No início, os modelos tinham outros nomes, como Chu I e Tulipa, antes de se consolidarem como um dos objetos urbanos mais reconhecidos do país.

Embora cabines telefônicas já existissem em outros países, o design brasileiro se destacou pela forma oval e funcionalidade. O formato foi pensado para melhorar a acústica: o som era projetado para fora da cabine, reduzindo ruídos externos e garantindo mais privacidade a quem utilizava o aparelho.

O modelo se tornou tão icônico que foi reproduzido em países como Peru, Angola, Moçambique e China, consolidando o orelhão como um símbolo brasileiro que atravessou fronteiras — e agora, entra para a história.