Lula discute guerra em Gaza e reforma da ONU com líderes estrangeiros antes de anunciar decisão
Antes de dizer “sim” ou “não” a um novo arranjo internacional proposto pelos Estados Unidos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abriu a agenda diplomática e passou a ouvir outros atores globais. O governo brasileiro avalia, com cautela, o convite para integrar o Conselho de Paz criado pelo presidente americano Donald Trump — um colegiado que nasce cercado de dúvidas jurídicas e políticas.
Nesta quinta-feira (22), Lula conversou por telefone com o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, um dos líderes também convidados a participar do conselho. Segundo comunicado do governo brasileiro, os dois defenderam a necessidade de uma “reforma abrangente” das Nações Unidas e do Conselho de Segurança da ONU, além de reafirmarem o compromisso com a paz em Gaza, o multilateralismo, a democracia e a defesa da paz no mundo.
Pouco depois, Lula falou com o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas. De acordo com nota do Palácio do Planalto, o presidente brasileiro manifestou satisfação com o cessar-fogo em Gaza, consultou Abbas sobre as perspectivas de reconstrução da região e reiterou o compromisso do Brasil com a paz no Oriente Médio.
Na conversa, os dois líderes trocaram impressões sobre o plano de paz em andamento e concordaram em manter contato sobre o tema. Israel e o Hamas aprovaram, em outubro de 2025, o plano de cessar-fogo apresentado pelos Estados Unidos. Apesar de dificuldades na primeira fase, o acordo avançou para a segunda etapa, que prevê a desmilitarização e a reconstrução completa da Faixa de Gaza.
Um dia antes, na quarta-feira (21), Lula também conversou por telefone com o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdoğan. Segundo o Planalto, a situação em Gaza e os esforços internacionais para a construção da paz na região estiveram no centro do diálogo.
O Conselho de Paz foi oficializado em uma cerimônia esvaziada durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. Ainda não há clareza sobre qual será a autoridade legal do órgão, quais instrumentos de execução estarão disponíveis nem como o grupo deverá se articular com a ONU e outras organizações internacionais.
Pelo estatuto do conselho, Donald Trump será o presidente do colegiado por tempo indeterminado, com amplos poderes executivos, incluindo a possibilidade de vetar decisões e destituir integrantes, dentro de certos limites. A carta constitutiva afirma que o órgão terá como missão exercer “funções de consolidação da paz em conformidade com o direito internacional”.
Brasil faz cálculos políticos e jurídicos
Nos bastidores, o governo brasileiro afirma que não há pressa para responder ao convite. A decisão, segundo auxiliares, não deve ser anunciada nesta semana, já que as avaliações políticas e jurídicas ainda estão em curso.
Desde que o convite foi formalizado, diplomatas brasileiros têm alertado para uma possível sobreposição de atribuições com o Conselho de Segurança da ONU e para a falta de definição sobre a atuação do novo órgão em outros conflitos, além da guerra na Faixa de Gaza.
Outro ponto em análise é se a eventual adesão ao Conselho de Paz precisaria passar pelo crivo do Congresso Nacional. Até o momento, não há clareza sobre a exigência de aprovação parlamentar nos países que decidirem integrar a iniciativa.
Segundo o governo americano, já aceitaram o convite para participar do conselho países como Argentina, Arábia Saudita, Catar, Egito e Israel.











