“Eu quero lembrar do meu parto”: por que mais mulheres buscam analgesia no parto normal

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Foto: Divulgação

Por muito tempo, falar em parto normal foi quase sinônimo de dor. Uma dor esperada, romantizada e, muitas vezes, tratada como “parte do pacote”. Mas, aos poucos, esse olhar começa a mudar — e com ele muda também a experiência de milhares de mulheres que desejam um parto com menos sofrimento e mais consciência do que está acontecendo ali: no corpo, na sala, no tempo.

No Brasil, o parto normal representa cerca de 43% a 45% dos nascimentos, mas as cesarianas ainda são maioria: 56,6% entre 2017 e 2022, acima dos 15% recomendados pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Nesse cenário, cresce o movimento de mulheres que querem o parto normal mas não querem viver a experiência como um limite de resistência. Elas querem estar presentes, lembrar, participar e, principalmente, querem escolher.

Mito e realidade – Um dos principais temas desta conversa é a analgesia no parto normal. Apesar de ser um recurso amplamente conhecido, ainda existe o mito de que “anestesia atrapalha o parto” ou de que a mulher perderia mobilidade e controle do corpo.

A anestesiologista Agne Chiquin Bochi Brittes, do Servan Anestesiologia, explica que esse receio vem de uma realidade que mudou com o avanço da anestesia obstétrica. “Esse mito vem de um tempo em que a analgesia podia causar um bloqueio motor maior e, de fato, interferir na evolução do parto. Hoje, a realidade é outra: temos domínio da técnica, conhecemos melhor os medicamentos e sabemos qual é o momento ideal para oferecer a analgesia. Com isso, conseguimos proporcionar conforto sem perder mobilidade, com segurança para a mãe e para o bebê”, afirma.

Quando se fala em parto humanizado com analgesia, uma dúvida comum é se aliviar a dor tornaria a experiência menos intensa ou menos “real”. Para Agne, acontece justamente o contrário: o alívio da dor pode devolver a mulher ao centro do próprio parto.

“Eu costumo dizer que a analgesia humaniza o parto, porque ela devolve à mulher o protagonismo desse momento. Quando a dor deixa de ser o centro da experiência, a mãe consegue viver o parto com mais presença: ela conversa, sorri, se emociona, se movimenta, e guarda lembranças boas desse dia, não só a dor”, diz.

Além do aspecto emocional, a médica ressalta que a analgesia pode favorecer a participação física durante o trabalho de parto. “Com ela, muitas mulheres conseguem colocar em prática o que aprenderam durante a gestação, como exercícios do pilates e da fisioterapia pélvica. Isso ajuda não só no conforto, mas também na participação ativa no trabalho de parto”, explica.

Menos ansiedade – A forma como a gestante chega ao parto influencia diretamente o que ela vai viver naquele momento. Insegurança, medo e dúvidas podem aumentar a tensão e dificultar o processo especialmente quando as perguntas sobre analgesia e anestesia surgem apenas “na hora”.

Por isso, a consulta pré-anestésica tem ganhado espaço como parte do cuidado. “A consulta faz muita diferença porque é ali que a gente tira dúvidas, se conhece e cria vínculo. A gestante sai mais segura, sabendo que vai ter suporte e alguém disponível para aliviar a dor quando o trabalho de parto começar”, afirma Agne.

Foi a partir dessa lógica, de preparar antes, estar presente na hora certa e oferecer um cuidado mais próximo, que o Servan estruturou o Humanizar, voltado a proporcionar uma experiência de parto humanizado com conforto e segurança, em alinhamento com o médico obstetra. O serviço traz acolhimento e avaliação pré-anestésica ainda durante a gestação e valoriza a condução integrada com os demais profissionais. “O parto envolve uma equipe, e esse cuidado precisa ser integrado”, resume Agne.

Conforto faz diferença – Na visão da especialista, o parto é um processo conduzido por uma rede de profissionais que precisam estar conectados, com comunicação constante, para manter a segurança e favorecer a evolução do trabalho de parto.

Essa integração, segundo ela, pode impactar inclusive na parte prática do nascimento. “Para o nascimento acontecer, não basta só dilatar — o bebê também precisa descer. Quando a mulher está confortável, com analgesia, ela consegue se movimentar melhor e fazer exercícios que favorecem esse processo”, completa.

No fim, o que muitas gestantes buscam hoje não é um parto idealizado, perfeito ou sem desafios. É um parto possível: seguro, respeitoso e com escolhas orientadas, em que a mulher se sinta amparada, consciente e dona do próprio momento.

A analgesia, quando bem indicada e conduzida por especialistas, pode ser parte desse caminho. Não como promessa de um “parto perfeito”, mas como ferramenta para uma experiência mais acolhedora, em que a mulher não apenas passa pelo parto: ela vive o parto. Porque nascer é um evento do corpo. Mas para quem dá à luz, também é um marco de vida.