Agência registrou 225 notificações de pancreatite associadas a esses medicamentos no Brasil
Um alerta que cresce na mesma velocidade da popularização das chamadas canetas emagrecedoras acendeu o sinal de atenção das autoridades de saúde. Dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) apontam seis mortes suspeitas de pancreatite e 225 notificações de casos suspeitos associadas ao uso desses medicamentos no Brasil desde 2018. As informações constam no VigiMed, sistema oficial de monitoramento de efeitos adversos, e em registros de pesquisas clínicas realizadas no país.
A Anvisa reforça que as notificações não significam, necessariamente, que os medicamentos tenham causado as mortes. Os registros funcionam como um alerta para investigação e acompanhamento dos casos. Ainda assim, o aumento gradual das notificações acompanha a expansão do uso das canetas, indicadas originalmente para o tratamento de diabetes tipo 2 e, mais recentemente, também para obesidade.
Entre 1º de janeiro de 2020 e 7 de dezembro de 2025, foram registradas 145 notificações de pancreatite no VigiMed. Ao somar dados de estudos clínicos, o total chega a 225 casos desde 2018. O crescimento é contínuo: em 2020 houve apenas um registro; em 2021, foram 21; em 2022, 23; em 2023, 27; em 2024, 28; e, em 2025, o número saltou para 45 notificações, o maior da série histórica.
Segundo a Anvisa, esse avanço está ligado ao maior uso dos medicamentos e à ampliação dos mecanismos de vigilância sanitária, e não indica, por si só, aumento do risco individual para quem faz o tratamento corretamente.
Mortes seguem sob investigação
Das notificações analisadas, seis envolvem mortes com suspeita de relação com pancreatite. Três casos estão associados à liraglutida (Saxenda), dois à semaglutida (Ozempic) e um à tirzepatida (Mounjaro). Os locais onde os óbitos ocorreram não foram divulgados, por questões de privacidade e porque as apurações ainda estão em andamento.
A agência também alerta que nem todos os registros envolvem medicamentos originais vendidos em farmácias. Há suspeita do uso de canetas falsas, irregulares ou manipuladas, muitas vezes comercializadas com nomes semelhantes aos produtos registrados.
Quais medicamentos aparecem nos registros
Os casos envolvem medicamentos da classe dos agonistas do GLP-1, como semaglutida (Ozempic, Wegovy e Rybelsus), liraglutida (Saxenda e Victoza), tirzepatida (Mounjaro), dulaglutida (Trulicity) e lixisenatida (Xultophy).
A pancreatite já consta nas bulas como possível efeito adverso, classificado como incomum. Os fabricantes orientam que o tratamento seja interrompido imediatamente diante de sintomas como dor abdominal intensa, náuseas persistentes e vômitos, com busca imediata por atendimento médico.
Onde os casos foram registrados
As notificações vieram de estados como São Paulo, Paraná, Bahia e do Distrito Federal. Pelo menos 59 casos resultaram em internação ou prolongamento do tempo hospitalar, o que indica quadros de maior gravidade. A Anvisa ressalta que os dados são agregados e não permitem identificar cada ocorrência de forma individual.
Fiscalizações em MS reforçam alerta
Em Mato Grosso do Sul, não há registro oficial de pancreatite associada ao uso dessas canetas até o momento. Mesmo assim, ações recentes de fiscalização reforçam a preocupação. Em janeiro de 2026, a Vigilância Sanitária apreendeu, nos Correios de Campo Grande, milhares de ampolas de tirzepatida, canetas de retatrutida e outros medicamentos sem registro na Anvisa.
Em fevereiro, outra operação retirou de circulação produtos avaliados em mais de R$ 1 milhão, parte deles vindos da fronteira com o Paraguai. As autoridades alertam que o uso sem prescrição pode causar pancreatite aguda, insuficiência renal e distúrbios metabólicos.
Mercado ilegal preocupa
A Anvisa estima que o mercado ilegal de canetas emagrecedoras movimente cerca de R$ 600 milhões por ano no Brasil. Desde abril de 2025, a agência passou a exigir retenção de receita médica e intensificou fiscalizações para tentar conter a venda irregular.
Especialistas pedem cautela, não suspensão
Autoridades sanitárias e especialistas reforçam que não há recomendação para suspender o uso das canetas, mas destacam a importância da prescrição responsável e do acompanhamento médico.
“Esses remédios são importantes e salvam vidas, mas podem se tornar perigosos se usados sem indicação ou de fontes duvidosas”, afirma Alexandre Hohl, diretor da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso).
Segundo ele, pacientes com obesidade e diabetes — público-alvo desses medicamentos — já apresentam maior risco de pancreatite, o que dificulta estabelecer uma relação direta com o uso das canetas. Já o gastroenterologista Célio Gomes, da UFMG, explica que a inflamação pode ocorrer por uma estimulação anormal do pâncreas, enquanto o endocrinologista Bruno Halpern lembra que o risco é considerado baixo quando o uso é correto.
Monitoramento continua
A Anvisa afirma que os casos seguem sob investigação e alerta para a possibilidade de subnotificação, já que médicos e hospitais não são obrigados a registrar todos os eventos adversos. A orientação permanece a mesma: as canetas devem ser usadas apenas com prescrição médica e acompanhamento profissional, especialmente diante do crescimento do uso fora das indicações aprovadas.




















