Após pressão global, plataformas passam a exigir verificação de idade com selfie e documento

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Nova fase inclui checagem por IA, foto do rosto e envio de identidade; Brasil terá regra a partir de março (Foto: IA/ChatGPT)

Discord, YouTube, TikTok, Roblox e ChatGPT adotam medidas após pressão por mais proteção a menores

Para mudar configurações, entrar em chats restritos ou assistir a conteúdos sensíveis, usuários de algumas das maiores plataformas do mundo poderão ter que provar a própria idade — com selfie, cartão de crédito ou documento oficial. A exigência faz parte de uma nova onda de medidas anunciadas por empresas de tecnologia em meio à pressão global por mais proteção a crianças e adolescentes na internet.

O anúncio mais recente foi feito pelo Discord. A plataforma de mensagens voltada a gamers informou que, a partir de março, poderá exigir verificação de idade quando o usuário tentar alterar configurações de segurança ou acessar conteúdos considerados sensíveis em canais e servidores.

Em janeiro, YouTube e OpenAI, dona do ChatGPT, também anunciaram a adoção de sistemas baseados em inteligência artificial para estimar a idade dos usuários em todos os países e aplicar proteções adicionais a menores. O TikTok iniciou processo semelhante na Europa. Já o Roblox passou a exigir verificação para liberar o acesso ao chat — medida que provocou protestos virtuais dentro do próprio jogo, com “cartazes” que viralizaram nas redes.

As iniciativas ocorrem em meio ao avanço de regulações. A Austrália proibiu menores de 16 anos de acessarem redes como Instagram, Facebook, TikTok e YouTube. Nos Estados Unidos, Meta e Google enfrentam processos que discutem danos à saúde mental de crianças e adolescentes e, pela primeira vez, devem ir a júri popular em um caso relacionado a vício em plataformas.

A OpenAI também passou a enfrentar acusações de que o ChatGPT não teria adotado salvaguardas suficientes para impedir a geração de conteúdos inadequados a adolescentes. No Brasil, o Roblox é alvo de denúncias sobre a atuação de aliciadores de menores — a empresa afirma que suas medidas de segurança superam as adotadas por outras plataformas.

Segundo Laís Peretto, diretora-executiva da Childhood Brasil, o movimento é uma resposta à crescente cobrança por responsabilização das empresas. “As plataformas têm que ser responsabilizadas e estão tentando antecipar regulações que já estão em discussão. Há um movimento crescente por controle maior”, afirma.

No Brasil, o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital), que começa a valer em março, prevê que plataformas verifiquem a idade de usuários quando houver possibilidade de acesso a conteúdo impróprio para menores de 16 anos. A verificação é um dos pontos centrais da nova regra, que busca equilibrar precisão e proteção de dados.

Como funciona a verificação

Não há um método único. TikTok, YouTube e ChatGPT utilizam inteligência artificial para analisar padrões de navegação e estimar a faixa etária. Roblox e Discord exigem verificação ao acessar recursos considerados mais sensíveis.

Entre os métodos aceitos estão:

  • selfie para estimativa de idade;
  • autorização por cartão de crédito para comprovar maioridade (sem cobrança);
  • envio de documento oficial com data de nascimento.

O Roblox e o ChatGPT utilizam tecnologia da empresa americana Persona. O TikTok adota ferramenta da britânica Yoti. O Discord recorre ao sistema da singapurense k-ID.

A Persona afirma que analisa características faciais e compara a selfie com o documento apresentado. A empresa reconhece, porém, que deepfakes — imagens manipuladas por inteligência artificial — representam um desafio crescente.

A Yoti transforma pontos da imagem em dados numéricos e utiliza IA treinada com milhões de rostos para estimar idade. Como há margem de erro, pode ser exigida confirmação adicional com documento. Já o k-ID afirma que processa a imagem no próprio dispositivo, sem envio a servidores externos.

Limites e desafios

Estudo financiado pelo governo da Austrália e publicado em 2025 apontou que ferramentas como Persona e Yoti apresentam menor precisão ao estimar a idade de crianças mais novas. Segundo o levantamento, a margem de erro é maior entre usuários abaixo de 13 anos — o que é atribuído à menor disponibilidade de dados para treinar as IAs e às rápidas mudanças faciais na infância.

Apesar das limitações, especialistas avaliam que a adoção de camadas adicionais de proteção representa avanço. “Mesmo que não seja perfeito, melhora muito o cenário atual”, diz Laís Peretto.

Para ela, a proteção depende de uma rede de responsabilidades que envolve governo, empresas, sociedade civil e famílias. “Os pais precisam usar ferramentas de controle parental, acompanhar o que os filhos acessam e manter diálogo aberto. A tecnologia ajuda, mas não substitui a supervisão e a conversa”, afirma.