PMMS repudia denúncia de “extermínio” de Associação de Travestis em nota sobre confronto que matou Gabriela

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Foto: Reprodução

Em nota divulgada nas redes sociais nessa terça-feira (17), a Polícia Militar repudiou a utilização do termo “extermínio” mencionado pela coordenadora interina da Associação das Travestis e Transexuais de Mato Grosso do Sul (ATTMS), Manoela Kika Rodrigues Veiga, em comunicado à imprensa sobre o confronto ocorrido na tarde de ontem (16), em Campo Grande, que resultou na morte da travesti Gabriela, de 27 anos.

Segundo a corporação, a citação pressupõe prática sistemática, direcionada e reiterada contra determinado grupo social. “Trata-se de uma acusação grave, que exige comprovação objetiva”, cita, completando que não há qualquer dado oficial que indique prática sistemática ou direcionada da PM contra qualquer grupo social. “Não possui histórico estatístico que sustente essa narrativa. Muito pelo contrário, possui um histórico de ações em prol da segurança e bem-estar dos sul-mato-grossenses”.

Na manifestação, a PM também apresentou a sua versão para os fatos, mencionando que a abordagem evoluiu para luta corporal. “Durante a ação, a arma de um policial foi tomada e apontada contra a equipe. Nesse cenário, configurou-se risco concreto e imediato à vida dos agentes e de terceiros”, justifica, contestando a versão de que houve excesso no número de disparos. “É importante esclarecer que protocolos de uso da força não se baseiam na contagem isolada de tiros, mas na necessidade de cessar a ameaça”.

A corporação segue a explicação, dizendo que a atuação ocorre até que o risco seja neutralizado, especialmente quando há arma de fogo envolvida e direcionada contra policiais e/ou terceiros. “Ocorrências com ameaça armada se desenvolvem em frações de segundo. Julgamentos posteriores devem considerar o contexto real enfrentado no momento da ação, e não percepções dissociadas da dinâmica do confronto”, pontua a nota.

Por fim, a PM lamentou a morte da travesti e reforçou que “atua com base na legalidade, na técnica e na filosofia de Polícia Comunitária; não direciona ações por identidade, condição ou pertencimento social; está submetida à investigação regular dos órgãos competentes; e permanece aberta ao diálogo responsável com todos os segmentos da sociedade”. “O debate público é legítimo. A generalização sem dados, não”, finaliza.

PMMS repudia denúncia de “extermínio” de Associação de Travestis em nota sobre confronto que matou Gabriela
Movimentação policial no local da ocorrência (Foto: Enviada ao Enfoque MS)

Anteriormente, a PMMS já tinha adiantado à imprensa que um procedimento interno será aberto para apurar os fatos. “Um Inquérito Policial Militar (IPM) será instaurado para apurar todas as circunstâncias do fato, como é praxe em ocorrências que envolvem o uso de arma de fogo por parte de seus membros”, destacou em outra nota sobre os fatos.

O caso

Imagens de uma câmera de videomonitoramento instalada em um comércio na frente da praça da Catedral de Santo Antônio, no cruzamento das ruas Calógeras e Quinze de Novembro, flagraram a dinâmica da abordagem policial que resultou na morte da travesti Gabriela.

Conforme consta, a vítima estava acompanhada de outros dois travestis e um homem. Ao avistarem a viatura se aproximando, eles tentam deixar a praça, mas são encurralados pela equipe na esquina. Os policiais pedem para que todos parem, mas há resistência e confronto com troca de empurrões, socos e chutes.

Na confusão, um dos militares tenta imobilizar um dos integrantes do grupo na faixa de pedestre, mas tem dificuldade pela resistência do mesmo. Outro policial se aproxima para ajudar, mas é atacado pela travesti Gabriela, que desfere ao menos três golpes e se afasta. Na sequência, este PM retorna para junto do primeiro, que está imobilizando o outro.

Porém, os dois são novamente agredidos pela Gabriela, que tenta fazer com que soltem a amiga. Nesse momento, conforme mostram as imagens, a arma do policial militar cai no chão e a travesti pega, rapidamente, apontando para militares. As informações indicam que ela chegou a puxar o gatilho, mas o disparo não ocorreu possivelmente por estar travada.

Um dos policiais, como resposta e para garantir a defesa própria, atira quatro vezes contra a travesti, acertando dois na coxa direita, um no quadril e outro no abdômen. Ela chegou a ser socorrida, mas sofreu uma parada cardíaca no caminho para a Santa Casa, não resistindo e morrendo ainda na ambulância. Não há informações sobre prisões na ocorrência, mas uma faca foi apreendida.

Ainda segundo a apuração, a travesti Gabriela acumulava dezenas de passagens policiais por diversos crimes, como furto, roubo, lesão corporal, resistência e até mesmo homicídio. A última ocorrência foi em outubro de 2025, quando entrou em confronto com uma equipe da Guarda Civil Metropolitana (GCM) no Centro POP.

Associação acusou PM de extermínio

Em nota, a Associação das Travestis e Transexuais de Mato Grosso do Sul (ATTMS) classificou o caso como “extermínio” e cobrou apuração “séria, técnica e imediata” por parte do Ministério Público e demais órgãos competentes. A entidade lamentou profundamente o ocorrido e contextualizou a violência contra pessoas trans no Brasil.

Na manifestação, ressaltou que não concorda com atos de violência, reconheceu que a polícia pode agir em legítima defesa e defendeu que o uso da força precisa ser analisado de forma técnica e criteriosa. Ao mesmo tempo, condenou que quatro disparos de arma de fogo não podem ser automaticamente compreendidos como legítima defesa sem investigação minuciosa sobre as circunstâncias da ocorrência.

“O que se tem agora é o extermínio de uma pessoa trans, fato gravíssimo que exige apuração séria, técnica e imediata por parte do MP [Ministério Público] e demais órgãos competentes”, aponta o comunicado. “A farda não pode servir de escudo para abusos, assim como o Estado não pode compactuar com práticas que violem direitos humanos”, cita.

A associação também afirmou que acompanhará o caso junto à sociedade civil organizada e informou que identificou comentários considerados transfóbicos nas redes sociais após o caso vir a público. “Esses conteúdos serão encaminhados às autoridades competentes, destacando que liberdade de expressão não pode ser usada para incentivar ou aplaudir violência contra pessoas LGBT+”, finaliza a nota.