Medidas radicais mobilizaram “fiscais do Sarney” e mudaram rotina dos brasileiros
Há 40 anos, uma canetada do governo prometeu acabar com a inflação que corroía salários e esvaziava carrinhos de supermercado. O Plano Cruzado, lançado em fevereiro de 1986 no governo de José Sarney, congelou preços, criou uma nova moeda e mobilizou a população em uma das experiências mais radicais de combate à alta de preços no país.
O plano tinha como objetivo conter a hiperinflação, que superava 200% ao ano. A principal medida foi o congelamento de preços nos níveis praticados em 28 de fevereiro de 1986, conforme publicação no Diário Oficial da União. Também houve a troca da moeda: o Cruzeiro (CR$) deu lugar ao Cruzado (CZ$), com corte de três zeros — CZ$ 1 equivalia a CR$ 1.000.
Para o economista José Luiz Pagnussat, professor desde 1985 e membro do Conselho Federal de Economia, tratou-se do maior congelamento de preços da história brasileira, sem paralelo em outras experiências internacionais. Segundo ele, a população passou a fiscalizar os estabelecimentos para garantir o cumprimento da tabela oficial. “Os consumidores se autodenominavam ‘fiscais do Sarney’. A inflação caiu a zero, mas começaram a faltar produtos”, relembra.
Euforia inicial e prateleiras vazias
Nos primeiros meses, o clima foi de entusiasmo. A assessora jurídica Rosilene Vieira, que tinha 40 anos na época, diz que a sensação era de alívio. “A gente fazia a compra do mês, e tudo continuava o mesmo preço. Era uma maravilha”, afirma.
Com o tempo, porém, vieram os sinais de desabastecimento. Diante da dificuldade de reposição e importação, comerciantes passaram a retirar produtos das prateleiras para evitar prejuízos. Supermercados ficaram vazios e alguns estabelecimentos fecharam as portas.
Um mercado paralelo começou a surgir para itens em falta. A carne, por exemplo, só aparecia em alguns açougues mediante pagamento acima do preço tabelado. O plano se baseava no diagnóstico de “inflação inercial” — quando a inflação passada se reproduz automaticamente no presente — e buscava quebrar essa dinâmica por meio do congelamento.
Salários, gatilho e desgaste
Além do congelamento de preços, o Plano Cruzado incluiu uma política salarial. Os salários foram congelados pela média dos seis meses anteriores, com abono de 8%, o que representava ganho real inicial para os trabalhadores. Também foi criado o chamado “gatilho salarial”: reajustes automáticos seriam aplicados sempre que a inflação acumulasse 20%.
Depois das eleições daquele ano, o governo iniciou reajustes pontuais para tentar conter o desabastecimento — entre eles, o da cerveja, em período de alta demanda no verão. As correções marcaram o início da perda de credibilidade do plano.
A jornalista Angela Schiller Cesarino, hoje com 70 anos, lembra que participou da fiscalização informal nos supermercados. “Nos primeiros meses, a sensação foi ótima. Mas depois os produtos começaram a sumir, e foi dando tudo errado”, afirma. Segundo ela, apesar da estabilidade inicial, evitou fazer financiamentos ou compras parceladas de maior valor.
Da frustração ao Real
Com o fracasso das medidas, a confiança na condução da economia ficou abalada. Novas tentativas de estabilização enfrentaram resistência até que, anos depois, o país implementou o Plano Real, responsável por controlar a inflação e restabelecer previsibilidade à economia.
Para o economista César Bergo, conselheiro do Conselho de Economia do Distrito Federal, o contexto de 1986 era de crise no regime monetário. Hoje, segundo ele, o desafio está mais concentrado na sustentabilidade fiscal de médio prazo. “Dentro do atual regime, com autonomia do Banco Central e controle relativo da inflação, a preocupação se concentra na âncora fiscal”, afirma.
Quatro décadas depois, o Plano Cruzado segue como símbolo de um período em que a busca por estabilidade mobilizou o país — primeiro com esperança, depois com frustração — e deixou lições que ainda ecoam no debate econômico brasileiro.




















