Possível classificação de PCC e CV como terroristas pelos EUA amplia tensão diplomática com o Brasil

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Pesquisa aponta que influência de Trump no cenário brasileiro impacta intenções de voto (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

Governo Lula tenta barrar medida enquanto aliados de Trump defendem enquadramento das facções; debate impacta cenário eleitoral

A possibilidade de os Estados Unidos classificarem facções criminosas brasileiras como organizações terroristas transformou um debate de segurança pública em um tema central da política externa — e também da disputa eleitoral no Brasil. A eventual inclusão do PCC (Primeiro Comando da Capital) e do Comando Vermelho (CV) na lista americana de grupos terroristas mobiliza o governo federal, provoca reação no Congresso e amplia a polarização política às vésperas do próximo ciclo presidencial.

Nos bastidores diplomáticos, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, tenta viabilizar um encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, antes de qualquer decisão oficial de Washington. Ao mesmo tempo, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), apontado como possível adversário de Lula em uma futura eleição presidencial, atua junto a entidades norte-americanas em defesa da proposta.

Especialistas ouvidos por analistas políticos avaliam que a discussão ultrapassa o campo da segurança internacional e passa a envolver diretamente o debate sobre soberania nacional e influência estrangeira no Brasil.

Governo rejeita classificação

Integrantes do governo federal têm se manifestado contra a possibilidade de enquadramento das facções como organizações terroristas estrangeiras (FTO, na sigla em inglês). A avaliação predominante é de que a medida poderia abrir precedentes para ações externas em território brasileiro.

Ainda em outubro do ano passado, o então ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, afirmou que o governo não pretendia “confundir” crime organizado com terrorismo, defendendo que os conceitos possuem naturezas jurídicas distintas.

A posição do Palácio do Planalto é de que a classificação poderia justificar intervenções semelhantes a operações militares realizadas pelos Estados Unidos em áreas marítimas próximas à Colômbia e à Venezuela no fim de 2025.

Apoio da oposição

Na direção oposta, Flávio Bolsonaro tem defendido publicamente a iniciativa americana. Em maio do ano passado, durante reunião com uma comissão dos Estados Unidos no Brasil, o senador afirmou ter entregue um dossiê classificando ações do PCC e do Comando Vermelho como práticas terroristas.

Após o encontro, o parlamentar intensificou contatos com autoridades estrangeiras. Em outubro de 2025, após forças americanas bombardearem embarcações suspeitas de tráfico de drogas no Oceano Pacífico, ele publicou nas redes sociais um vídeo da operação e sugeriu que ações semelhantes poderiam ocorrer no Brasil para combater organizações criminosas.

Polarização e impacto eleitoral

Para o professor Antônio Jorge Ramalho, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), a iniciativa também possui dimensão política.

Segundo ele, o tema pode reforçar a polarização tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil. O especialista afirma que declarações e posicionamentos internacionais tendem a influenciar narrativas eleitorais e ampliar disputas ideológicas.

“Há sinais de tentativa de radicalização do debate para ampliar a polarização durante o período eleitoral”, avalia.

O professor de Relações Internacionais Eduardo Galvão destaca ainda o aumento da presença estratégica dos Estados Unidos na América Latina. De acordo com ele, documentos recentes da política de segurança americana indicam que Washington voltou a priorizar o Hemisfério Ocidental como área de influência, movimento interpretado por analistas como uma atualização da histórica Doutrina Monroe.

Debate sobre soberania

Mesmo sem decisão oficial, o tema já produz efeitos políticos. Pesquisa divulgada pela Quaest apontou que um eventual apoio de Donald Trump a Flávio Bolsonaro poderia beneficiar eleitoralmente Lula: 32% dos entrevistados disseram que o respaldo estrangeiro os levaria a votar no petista, enquanto 28% afirmaram que ajudaria o senador.

Para especialistas em segurança pública, a divergência entre as legislações dos dois países é um dos principais pontos de tensão. O advogado Berlinque Cantelmo ressalta que o ordenamento jurídico brasileiro diferencia claramente terrorismo de crime organizado.

Já nos Estados Unidos, a classificação de grupo terrorista exige que a organização seja estrangeira, participe ou tenha capacidade de realizar atos terroristas e represente ameaça à segurança nacional americana ou a seus interesses externos.

Na legislação brasileira, por outro lado, a Lei Antiterrorismo estabelece que atos terroristas estejam ligados a motivações como xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia ou religião — critérios que não se aplicam diretamente às facções criminosas.

Para especialistas, uma eventual decisão unilateral dos EUA pode gerar atritos diplomáticos e abrir um debate sensível sobre jurisdição internacional e autonomia brasileira, tema que tende a ganhar espaço no centro das discussões políticas nos próximos meses.