Governo federal intervém e adia reajuste de 12,6% na conta de luz da Energisa em MS

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Energisa é a concessionária de energia de grande parte de MS (Foto: Divulgação)

Aumento proposto pela Aneel é três vezes maior que a inflação e pode impactar 1,1 milhão de consumidores; negociação busca reduzir índice antes da decisão final

O valor da conta de luz dos sul-mato-grossenses pode subir mais de três vezes acima da inflação — mas a definição do reajuste foi adiada após intervenção do governo federal. A proposta de aumento médio de 12,61% na tarifa da Energisa MS, que atende cerca de 1,1 milhão de consumidores no estado, saiu temporariamente da pauta da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) enquanto autoridades buscam alternativas para reduzir o impacto no bolso da população.

O reajuste tarifário seria analisado pela diretoria da Aneel na reunião marcada para terça-feira (7), mas foi retirado após pedido do Ministério de Minas e Energia. Agora, o tema deve voltar à discussão no próximo dia 14.

Segundo a agência reguladora, o índice sugerido inicialmente representa aumento três vezes maior que a inflação oficial acumulada nos últimos 12 meses, medida pelo IPCA, que ficou em 3,81%. Caso aprovado integralmente, o reajuste pode influenciar diretamente o custo de vida, já que o aumento da energia elétrica costuma impactar preços de alimentos, serviços e outras tarifas, como água e esgoto.

Governo tenta reduzir impacto

Documentos do processo indicam que o governo federal solicitou à Aneel a avaliação de medidas capazes de mitigar os efeitos do reajuste sobre os consumidores. Em ofício enviado à concessionária, a diretora da Aneel e relatora do processo, Agnes Maria de Aragão da Costa, informou que o Ministério de Minas e Energia sugeriu o adiamento das análises para permitir a construção de uma solução considerada mais equilibrada.

Para retirar o tema da pauta, porém, era necessário o aval da Energisa MS. A empresa concordou com o adiamento, desde que eventuais perdas financeiras decorrentes do atraso sejam posteriormente compensadas pela agência reguladora.

Lucro da concessionária e discussão tarifária

A discussão ocorre após a Energisa MS registrar lucro de R$ 407 milhões em 2025. Apesar de representar queda de 32,6% em relação ao ano anterior, o resultado ainda demonstra forte desempenho financeiro da concessionária, que faturou cerca de R$ 6,2 bilhões no período.

Nos últimos cinco anos, a empresa acumulou aproximadamente R$ 2,7 bilhões em lucros operando nos 74 municípios de Mato Grosso do Sul. Em 2024, o lucro havia alcançado R$ 603,7 milhões, enquanto o lucro líquido passou de R$ 517,1 milhões para R$ 378 milhões em 2025 — o menor resultado desde 2020, período da pandemia de covid-19.

No ano passado, o reajuste médio aplicado aos consumidores foi bem menor, de 1,33%, sendo 0,69% para clientes de baixa tensão e 3,09% para alta tensão.

Possíveis impactos no custo de vida

Especialistas apontam que aumentos expressivos na tarifa de energia tendem a pressionar a inflação regional, já que elevam custos de produção, transporte e prestação de serviços.

O cenário preocupa especialmente diante do alto nível de endividamento das famílias. Pesquisa da Fecomércio-MS indica que 70,1% das famílias de Campo Grande estavam endividadas em janeiro de 2026, o equivalente a mais de 246 mil lares.

Entre famílias com renda de até 10 salários mínimos, o índice chega a 72,5%. Além disso, cerca de 12,5% dos moradores da capital afirmam não ter condições de quitar dívidas em atraso no próximo mês — aproximadamente 43,8 mil famílias.

Próximos passos

A decisão final sobre o reajuste dependerá da análise da diretoria da Aneel, prevista para o dia 14. Até lá, governo federal, agência reguladora e concessionária seguem negociando alternativas que possam reduzir o impacto tarifário sem comprometer o equilíbrio econômico do contrato de concessão, recentemente renovado por mais 30 anos com aval do Tribunal de Contas da União.