
Celebração centenária reúne fé, samba, procissões e tradição quilombola até o dia 17 de maio
A fé, a música e a memória da cultura negra voltam a ocupar as ruas da Comunidade Quilombola Tia Eva a partir desta sexta-feira (8), em Campo Grande. Começa hoje a 107ª edição da tradicional Festa de São Benedito, celebração centenária que reúne devoção, manifestações culturais e a resistência da comunidade fundada por Eva Maria de Jesus.
A programação segue até o dia 17 de maio, na Rua Eva Maria de Jesus, no Jardim Seminário, e deve reunir milhares de pessoas entre moradores, devotos, integrantes do movimento negro, pesquisadores, comunidades quilombolas e visitantes de várias regiões de Mato Grosso do Sul.
A festa nasceu de uma promessa feita por Tia Eva há mais de um século e, desde então, tornou-se uma das mais importantes manifestações religiosas e culturais do estado.
Segundo a descendente de Tia Eva e uma das organizadoras da celebração, Vânia Duarte, manter a tradição significa preservar a história e o compromisso deixado pela matriarca da comunidade. “Manter viva a realização da Festa de São Benedito é continuar com a promessa de Tia Eva. É honrar o compromisso que ela fez há mais de um século, de dar continuidade a essa devoção”, afirmou.

De acordo com Vânia, a origem da festa antecede até mesmo a construção da igreja. Durante a viagem para a região que hoje corresponde a Mato Grosso do Sul, Tia Eva teria alcançado uma graça atribuída a São Benedito. Ao chegar ao atual bairro Seminário, construiu uma pequena igreja de sapé e pau a pique e passou a reunir famílias, vizinhos e trabalhadores rurais para as celebrações.
“Ela viajava pelas fazendas e chácaras buscando prendas e doações para realizar a festa. Sempre foi uma celebração coletiva, marcada pela confraternização e pelo almoço gratuito que buscamos manter até hoje, mesmo com todas as dificuldades”, relembrou.
Programação mistura fé, cultura e esporte
Ao longo dos próximos dez dias, a comunidade terá missas, terços, procissões, rodas de samba, shows de pagode e sertanejo, bailes, corrida de rua, torneios de futebol society, apresentações culturais, exibição de documentários e atividades comunitárias.
“A nossa vivência é diversa. O futebol sempre esteve muito presente aqui, assim como a música, o samba, o pagode, o baile e a dança. Tudo isso faz parte da nossa identidade e da nossa forma de existir enquanto comunidade quilombola”, explicou Vânia.
Entre os momentos mais aguardados da programação estão o levantamento do mastro de São Benedito, acompanhado da fogueira, e a tradicional procissão de encerramento pelas ruas da comunidade.
Patrimônio da cultura negra
A Igreja de São Benedito, construída inicialmente em barro e depois reconstruída em alvenaria em 1919, tornou-se um dos principais símbolos da presença negra em Campo Grande. O espaço é tombado como patrimônio cultural pelo município e pelo Estado desde 1998 e recebe reconhecimento nacional em 2026.
Neste ano, a festa conta com apoio do Grupo Trabalho e Estudos Zumbi (Grupo TEZ), por meio do projeto “Festividades Religiosas: Saberes e Ancestralidade”.
Para a presidenta do grupo, Bartolina Ramalho Catanante, apoiar a festa significa fortalecer a memória e a resistência da população negra sul-mato-grossense. “Quando o TEZ apoia uma festa como a de São Benedito, a gente está apoiando muito mais do que um evento religioso. Estamos fortalecendo um patrimônio vivo da cultura negra, uma memória ancestral que atravessa gerações e permanece viva dentro da comunidade”, afirmou.
Ao completar 107 anos, a Festa de São Benedito reafirma a tradição iniciada por Tia Eva: transformar fé, cultura e memória coletiva em símbolo de resistência e pertencimento da comunidade negra em Mato Grosso do Sul.










