Ano eleitoral começa em clima de polarização e disputa pelo eleitor de centro

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(Foto: TSE/Ilustração)

O Brasil chegou a mais um ano de eleições presidenciais em clima de polarização política. Este é o tema desta quinta-feira (1º) da série Desafios de 2026, do SBT Brasil.

O presidente Lula pretende disputar a reeleição. O ex-presidente Jair Bolsonaro, preso, continua no centro do jogo político, agora com o filho Flávio Bolsonaro como principal nome da oposição.

Para a pesquisadora do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília, Isabela Rocha, a tendência é de continuidade desse cenário. “Realmente a gente vai ter uma manutenção da polarização ano que vem”, afirma.

O analista político Marcelo Suano, doutor e mestre em Ciência Política pela USP, avalia que essa divisão se concentra em figuras específicas. “Essa polarização está configurada nas duas principais lideranças carismáticas que o Brasil tem”, explica.

Já o cientista político Leandro Consentino destaca que, apesar da radicalização, esses grupos vêm diminuindo. “Vão estar radicalizados nos extremos, mas esses extremos estão cada vez menores do ponto de vista do conjunto da população”, diz.

Segundo o professor de Gestão de Políticas Públicas da USP, Pablo Ortellado, há um grande grupo fora dessa lógica. “A gente tem um cenário no qual 54% da população brasileira não está polarizada, e a voz dessas pessoas é muito sub-representada no debate político”, aponta.

Em meio à polarização e ao cansaço de parte dos eleitores, especialistas avaliam que a tendência é de uma disputa com propostas ainda mais eleitoreiras em 2026.

De um lado, o Planalto aposta na reeleição de Lula, com discurso de continuidade, programas sociais e aumento de políticas populares. O governo já deu sinais de que pretende levar à campanha propostas de forte apelo, como transporte público gratuito e a redução da escala de trabalho seis por um.

Do outro, o bolsonarismo busca se manter vivo, mesmo com Jair Bolsonaro preso e fora da disputa eleitoral. Apesar de não ter alcançado unanimidade na direita, Flávio Bolsonaro aparece como principal nome da oposição para representar o pai nas urnas. Ele investe em promessas para disputar o eleitorado, com foco na segurança pública e em ações de combate ao crime organizado.

As investidas dos dois lados preocupam setores econômicos. Para o presidente da CNI, Ricardo Alban, “todo ciclo eleitoral é sempre preocupante para a indústria”. Segundo ele, a volta da polarização chama atenção porque “as medidas populistas tendem a ganhar mais força, independentemente de ser um ano eleitoral ou não”.

Mas e os eleitores que não se sentem representados por nenhum desses lados? Eles integram um grupo grande e silencioso, mas que pode decidir a eleição do ano que vem.

Um levantamento nacional da Quaest, que ouviu dez mil pessoas sobre o perfil dos eleitores, indica que 54% dos brasileiros não se identificam nem como de direita nem como de esquerda. É um eleitorado menos ideológico, mais pragmático e potencialmente decisivo em 2026.

Pablo Ortellado destaca que esses eleitores não são despolitizados. “Eles simplesmente estão rejeitando a maneira como a política está sendo feita. Eles sentem que estão sendo coagidos a se posicionar no local de trabalho ou em reuniões de família”, afirma. Segundo ele, são grupos mais pobres, com concepções políticas bem articuladas e pragmáticas, que buscam serviços públicos de saúde e educação de qualidade, empregos melhores e melhoria de vida.

Nesse espaço, disputam nomes como os governadores Romeu Zema, de Minas Gerais; Ronaldo Caiado, de Goiás; e Ratinho Júnior, do Paraná, todos pré-candidatos à Presidência. Há ainda Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, que tem dito que vai concorrer à reeleição e não disputar o Planalto.

Em comum, todos prometem anistia para Jair Bolsonaro e os envolvidos na tentativa de golpe. A falta de definição mantém o centro político sem um rosto claro.

Terceira via

Para Isabela Rocha, falta uma liderança de terceira via. Ela lembra que Lula segue como grande personagem da esquerda e que, no campo bolsonarista, Jair Bolsonaro e seus filhos ainda concentram capital político. “Mas, no fim das contas, quem é a grande estrela do centrão? Quem é a grande estrela da terceira via? Não tem uma estrela de terceira via”, afirma. Segundo ela, esse vácuo mantém o país preso aos mesmos personagens.

Marcelo Suano avalia que a polarização também funciona como instrumento de poder. Para ele, não se trata apenas de esquerda contra direita, mas de quem quer mudar o caminho e de quem precisa preservar o que já foi construído. “A própria máquina se interessa por essa polarização, porque assim ela afasta aqueles que podem questioná-la”, diz, ao definir essa máquina como o próprio sistema político.

Apesar de os grupos extremados perderem fôlego, analistas garantem que a polarização segue forte e deixou de ser apenas ideológica para se tornar um fenômeno político e social, marcado pela emoção.

Isabela Rocha reforça que a política brasileira é imprevisível e emocional. Segundo ela, a polarização não é racional nem vem apenas da identificação com pautas específicas, mas da identificação emocional com Lula ou Bolsonaro. “Ainda vão ser alguns anos até a gente conseguir parar de pensar com o coração e começar a pensar com a cabeça”, afirma.

Demandas concretas

Para além das paixões políticas, Leandro Consentino destaca que demandas concretas devem pesar na escolha do eleitor. Ele aponta a segurança pública como o principal tema, seguida da economia e, por fim, de um discurso que consiga encantar os brasileiros e trazer alguma renovação, mesmo em cenários de continuidade.

Fato é que, em 2026, o eleitor de centro será disputado. Para Pablo Ortellado, como esse grupo está insatisfeito com a forma como a disputa vem sendo feita, ele carrega a esperança de algo novo. A questão, segundo ele, é se surgirão atores políticos capazes de gerar entusiasmo nesse segmento.

Marcelo Suano avalia que a esquerda vai buscar garantir inclusão sem “quebrar o país”, enquanto a direita vai prometer mudanças na máquina política, vista por eles como responsável pelos problemas do Brasil.

Leandro Consentino ressalta que o centrão chega fortalecido, especialmente no Congresso Nacional, e deve articular apoios tanto à direita quanto à esquerda para se manter ao lado dos vencedores, como tradicionalmente ocorre.

O consenso entre os analistas é que a polarização já deixou marcas profundas nos brasileiros. Para Isabela Rocha, todos têm histórias de perdas de amigos e familiares por causa da divisão política. Segundo ela, o desejo é comum: “Todo brasileiro quer que a polarização acabe. A gente quer voltar a ser um país unido”.

*Por SBT News