Ano novo, dívidas antigas: inadimplência atinge 80,6 milhões de brasileiros

17
Brasil bate recorde de inadimplência e chega a 80,6 milhões de negativados (Foto: CNDL)

Número é o maior da série histórica e revela dificuldades para equilibrar o orçamento familiar

Virar o ano não significou, para muitos brasileiros, começar do zero no orçamento. Logo nos primeiros dias do novo calendário, milhões de famílias ainda carregam dívidas antigas e enfrentam dificuldades para equilibrar as contas, em um cenário marcado por inflação acumulada, crédito caro e renda apertada.

Os dados mais recentes da Serasa confirmam esse retrato. Em novembro, o Brasil chegou a 80,6 milhões de pessoas com o nome negativado, o maior número da série histórica. O recorde veio após 11 meses seguidos de alta na inadimplência, mostrando que o aperto financeiro persiste mesmo com sinais de aquecimento no mercado de trabalho.

A faixa etária mais impactada é a de 41 a 60 anos, que concentra 35,4% dos inadimplentes. Na sequência aparecem pessoas entre 26 e 40 anos (33,4%), os maiores de 60 anos (19,7%) e os jovens de 18 a 25 anos (11,2%).

Durante a última edição do Feirão Serasa Limpa Nome, o valor médio dos acordos fechados foi de R$ 689, com R$ 17,8 bilhões em descontos concedidos apenas em novembro. Ainda assim, o volume de dívidas segue elevado: são 698 milhões de ofertas de negociação ativas, que somam mais de R$ 1 trilhão.

Para o economista Riezo Almeida, o problema vai além de decisões individuais. “A inflação acumulada corrói o poder de compra, os salários ainda são baixos e o mercado de trabalho segue instável. Muitas famílias recorrem ao crédito para cobrir despesas básicas ou enfrentar emergências”, explica.

Dados do Banco Central mostram que o quadro se agravou nos últimos anos. Em dezembro de 2020, 66,3% das famílias estavam endividadas. Em 2025, esse percentual saltou para 79,5%, com aumento também no número de contas em atraso.

Mesmo com mais pessoas empregadas, Riezo alerta para um ciclo difícil de romper. “Existe uma bola de neve histórica. A renda ajuda, mas, sozinha, não é suficiente para colocar o orçamento no azul”, afirma.

Segundo a Pesquisa Nacional de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), as dívidas que mais pesam no orçamento familiar são, nesta ordem: cartão de crédito, cheque especial, crédito consignado e financiamentos de longo prazo, como imóveis e veículos.

O economista também diferencia dois conceitos que costumam se confundir. “Estar endividado não é necessariamente um problema. A inadimplência começa quando a renda já não cobre os compromissos e as contas passam a atrasar”, explica.

Dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC) mostram que, em 2025, 79,5% das famílias tinham dívidas, 30,5% estavam com contas em atraso e 13,2% declaravam não ter condições de pagar.

Educação financeira como ponto de virada

Para Riezo, um dos principais erros está no aumento do padrão de vida sem planejamento. “Quando a renda cresce, os gastos crescem junto. Isso acontece em todas as classes sociais”, diz. Ele avalia que programas de renegociação ajudaram a reduzir parte do estoque de dívidas, mas não atacam o problema estrutural. “Sem educação financeira e aumento real da renda, o fluxo de caixa continua comprometido.”

A projeção para o próximo ano exige cautela. Com juros elevados, o crédito deve seguir caro. A tendência, segundo o economista, é a migração de dívidas de consumo para contas essenciais, como água e energia.

Organização é a chave

A economista Petra Duque reforça que o primeiro passo para sair do vermelho é conhecer a própria realidade financeira. “É essencial saber quanto da renda está comprometida, quais juros estão sendo pagos e se existe alguma reserva”, afirma.

Ela recomenda mapear todas as dívidas, priorizar as que têm juros mais altos e estabelecer um orçamento rígido. “Aumentar a renda sem controle financeiro não resolve. Disciplina e metas claras fazem a diferença.”

Petra também destaca a importância de poupar, mesmo que pouco. “Tratar a poupança como uma conta fixa e construir uma reserva de emergência evita recorrer ao crédito caro em momentos difíceis”, diz.

E resume com uma frase simples: “A gente não é rico pelo que ganha, mas pelo que consegue poupar. Quem poupa mais do que gasta constrói segurança financeira — e isso muda tudo.”

*com informações R7