Após audiência de custódia, Alcides Bernal tem prisão preventiva decretada pela Justiça

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Alcides Bernal (Foto: Arquivo/Rede Social)

O ex-prefeito de Campo Grande e ex-deputado estadual Alcides Bernal teve a prisão em flagrante convertida em preventiva ao passar pela audiência de custódia na manhã dessa quarta-feira (25), no Fórum. Ele está preso desde ontem (24), quando matou o auditor fiscal estadual Roberto Carlos Mazzini, de 61 anos, em disputa pela posse de uma casa pertencente ao político, mas comprada pela vítima em um leilão no ano de 2025 em função do não pagamento do financiamento junto à Caixa Econômica Federal.

Em um vídeo que mostra parte do depoimento prestado, o político aparece visivelmente nervoso, com a perna agitada e mãos trêmulas, segurando um copo com água, enquanto responde aos questionamentos sobre os fatos. No trecho em questão, ele revela que a arma usada no crime, de calibre .38, foi um presente recebido quando exercia o mandato de prefeito, entre 2013 e 2016.

“Eu tenho o porte, tenho o registro. Essa arma foi adquirida em 2023, inclusive, foi um presente que me deram porque eu sofri ameaça. Eu fui prefeito de Campo Grande, enfrentei o sistema e, como diria o Capitão Nascimento, o sistema é difícil”, contou, explicando como fez o teste para obter o porte.

Bernal também mencionou que agiu em legítima defesa, pois foi informado pela empresa de segurança privada que alguém estaria tentando invadir a sua casa, na Rua Antônio Maria Coelho, no bairro Jardim dos Estados. “Me mandaram a imagem. Aí eu fui para a minha casa. Quando eu cheguei, os caras estavam dentro da casa, partiram para cima de mim e aí eu tive que me defender”, declarou.

Também contou que era para ter acertado a perna, mas acabou atingindo a costela. “Eu dei um tiro e depois outro, mas para acertar no chão ou na perna. Não foi para matar. Para mim, eu tinha acertado a perna. Ele caiu e tentou levantar”, defendeu. “Foi um reflexo de defesa. Ou ele tomava minha arma ou acontecia o que aconteceu. Eu estava sozinho e eles estavam em mais de um”, completou.

Ele também disse que não foi intimado sobre a posse do novo proprietário e que está recorrendo da realização do leilão. “Quem arremata tem que buscar a Justiça. Não pode invadir, arrombar portão, porta e entrar. Eu não fui intimado do leilão nem da execução. Entrei com ação para anular isso”, disse, reforçando também que não conhecia a vítima.

O caso

Alcides Bernal matou auditor fiscal que comprou a sua antiga casa em leilão judicial
Movimentação policial em frentre a casa onde o crime ocorreu (Foto: Enviada ao Enfoque MS)

O auditor morto por Alcides Bernal tinha ido até a casa comprada no leilão de 2025 para tomar a posse. Ele estava acompanhado por um chaveiro para destrancar o portão e ter acesso ao interior. Entretanto, acabou surpreendido pelo político, que ainda teria discutido antes de disparar ao menos dois tiros.

A vítima foi atingida na altura da costela e chegou a ser socorrida pelo Corpo de Bombeiros. Foram cerca de 25 minutos de manobras de reanimação, mas ele não resistiu e morreu ainda no local. Ao mesmo tempo, o ex-prefeito se entregou na 1ª Delegacia de Polícia Civil de Campo Grande, confessou o homicídio, entregou a arma e foi preso.

No primeiro depoimento, Bernal disse que acionou o SAMU e o Corpo de Bombeiros para socorrer o auditor, entretanto, não permaneceu no imóvel. O caso foi registrado como homicídio qualificado, com agravantes como traição, emboscada, dissimulação ou outro recurso que dificultou a defesa da vítima.

Posse do imóvel ainda estava em tramitação

O imóvel tem terreno de 1.440 m² e área construída de 678 m². O processo de posse da casa ainda estava na regularização em cartório, mas o auditor tinha consigo um documento de notificação extrajudicial para desocupação do imóvel. A vítima arrematou por R$ 2,4 milhões, com desconto de 36% sobre o total de avaliação de R$ 3,7 milhões, em novembro de 2025.

“Diante do exposto, fica V.Sª NOTIFICADO a desocupar o imóvel voluntariamente, lire de pessoas e bens, no prazo de 30 dias, contados a partir do recebimento desta notificação, entregando as chaves ao notificante ou administradora”, constava no documento datado em 20 de fevereiro de 2026.

Família da vítima pede justiça

Por meio de nota, a família de Mazzini alega consternação e tristeza diante dos fatos ocorridos. Afirma que Roberto Mazzini era um homem de família — filho, pai, esposo, irmão e sogro — cuja perda deixa um vazio irreparável. Em relação ao imóvel, a família ainda afirma que a vítima estava dentro da legalidade e que a casa constava como desocupada.

“O imóvel em questão havia sido adquirido diretamente junto à Caixa Econômica Federal. Tratava-se de um bem que já não pertencia ao antigo proprietário, tendo este perdido a propriedade anteriormente (ele havia sido regularmente notificado disso). O contrato de compra e venda foi firmado e o cartório competente certificou que o imóvel se encontrava desocupado no momento da aquisição.

Temos conhecimento de imagens que demonstram que Roberto Mazzini estava entrando no imóvel, adquirido por meios legais e descrito como desocupado na documentação de aquisição, quando foi surpreendido.

Ainda segundo a família, Mazzini estava desarmado, foi atingido covardemente nas costas e não teve qualquer possibilidade de defesa. “Diante dessa tragédia, a família clama por justiça e confia que os fatos serão rigorosamente apurados, com a devida responsabilização dos envolvidos.”