Após aval do acordo Mercosul-UE, Brasil mira Índia, Canadá e Emirados em 2026

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Brasil pretende concentrar esforços em destravar negociações e ampliar acordos comerciais do Mercosul com Índia, Canadá e Emirados Árabes Unidos

Governo quer ampliar acordos comerciais, reduzir tarifas e diversificar exportações do bloco

Com o sinal verde dado pelo Conselho Europeu ao acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia, o Brasil já começou a desenhar o próximo passo da política comercial: enquanto o tratado com os europeus avança para a fase final, o governo decidiu acelerar negociações com parceiros considerados estratégicos a partir de 2026, mirando Índia, Canadá e Emirados Árabes Unidos.

A avaliação no Planalto é de que o momento internacional abre espaço para ampliar a inserção do Mercosul em mercados ainda pouco explorados. Neste ano, a prioridade será destravar conversas que estão em andamento e ampliar acordos já existentes, com foco na redução de tarifas e na diversificação da pauta exportadora brasileira.

Índia: mercado gigante e pouco explorado

No caso da Índia, o objetivo é ampliar a cobertura do acordo de comércio preferencial que o país mantém com o Mercosul. Hoje, o alcance é considerado limitado pelo governo brasileiro. Apenas 14% das exportações do Brasil para o mercado indiano estão contempladas no tratado, que abrange cerca de 450 categorias de produtos, de um universo de aproximadamente 10 mil.

A Índia, país mais populoso do mundo e que passou por forte processo de industrialização nas últimas duas décadas, ainda é vista como subaproveitada pelos exportadores brasileiros. Atualmente, mais de metade das vendas do Brasil para Nova Délhi se concentra em óleos vegetais, açúcares e petróleo bruto.

A aposta do governo é diversificar essa pauta, com potencial para ampliar as exportações de minério de ferro, algodão, feijões e pulses, etanol, genética bovina e frutas. Também aparecem como alternativas carne de aves, pescado, café e suco de laranja.

O principal obstáculo, porém, são as tarifas elevadas praticadas pela Índia, que praticamente não incluiu produtos do agronegócio no acordo atual. A meta brasileira é negociar a inclusão de novos itens, reduzir alíquotas e eliminar barreiras comerciais.

Em 2025, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que o governo indiano concordou em ampliar a cobertura do acordo, após uma conversa telefônica com o primeiro-ministro Narendra Modi.

Emirados Árabes: acordo perto da reta final

Com os Emirados Árabes Unidos, o governo brasileiro trabalha para concluir as negociações de um acordo de livre comércio entre o Mercosul e o país árabe. As tratativas começaram em 2024 e avançaram rapidamente, com a quarta rodada de negociações concluída em novembro.

Segundo autoridades envolvidas nas conversas, havia expectativa de fechamento ainda no ano passado, já que as divergências ficaram concentradas em poucos pontos. A conclusão, no entanto, deve ficar para 2026.

O principal impasse envolve o pedido dos Emirados para zerar as tarifas de importação do Mercosul sobre cerca de duas dezenas de produtos petroquímicos. O tema é sensível para a indústria brasileira, que busca proteção diante da competitividade do setor árabe, fortemente ligado à produção de petróleo.

Atualmente, o Brasil exporta principalmente carne de frango, carne bovina e açúcar para os Emirados Árabes. Já as importações são dominadas por petróleo, ureia, enxofre e peças para aeronaves.

Além do comércio, a relação bilateral tem sido fortalecida por investimentos. Grupos e fundos como Mubadala, ADIG, Edge Group e DP World ampliaram de forma significativa sua presença no Brasil, e a parceria já é classificada pelas diplomacias dos dois países como estratégica e confiável.

Canadá: acesso a mercados de maior valor agregado

No caso do Canadá, o objetivo do governo é avançar nas negociações para um acordo de livre comércio entre o Mercosul e o país norte-americano. A avaliação é de que o tratado pode abrir portas para mercados de maior valor agregado, especialmente na área de mineração, além de beneficiar o agronegócio.

As negociações tiveram início em 2018, mas foram retomadas em 2025, em meio às turbulências no comércio global provocadas pelas tarifas anunciadas pelo então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

O acordo em discussão prevê a redução de tarifas, a facilitação do comércio de bens e serviços e o aprofundamento da cooperação em áreas como investimentos, compras governamentais e regras ambientais — pontos considerados centrais para ampliar a presença brasileira no mercado canadense.