Avanço do crime organizado leva PF e TSE a endurecer fiscalização eleitoral

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PF aposta em tecnologia e inteligência para coibir crimes eleitorais em 2026

Quase R$ 30 milhões em espécie foram apreendidos nas eleições municipais de 2024

O dinheiro apreendido em malas, mochilas e até fundos falsos durante as eleições municipais de 2024 acendeu um alerta que não se apagou com o fim da votação. Diante do avanço do crime organizado sobre o processo eleitoral e da apreensão recorde de quase R$ 30 milhões em espécie, autoridades de segurança e da Justiça Eleitoral já colocaram em marcha um plano de reforço para coibir crimes eleitorais no pleito de 2026.

A estratégia envolve uso intensivo de tecnologia, cruzamento de grandes bases de dados, aprofundamento das investigações financeiras e a continuidade das operações policiais mesmo fora do calendário oficial das eleições.

Segundo o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, a atuação dos órgãos de segurança passou a se apoiar fortemente em inteligência e integração de informações. As equipes da PF já trabalham para acessar dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), respeitando a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e os sigilos legais.

O objetivo é cruzar resultados eleitorais, doações de campanha, movimentações financeiras e outros registros para identificar, com antecedência, indícios de irregularidades e orientar ações preventivas.

“Nossas equipes já estão trabalhando de maneira muito avançada para que a gente consiga, a partir de ferramentas e bases de dados nossas, fazer os cruzamentos de informações e extrair bons resultados”, afirmou Rodrigues na semana passada, durante um seminário promovido pela Justiça Eleitoral.

Outro eixo central da estratégia é o aprofundamento das investigações financeiras e o enfrentamento direto ao crime organizado. Para o diretor da PF, práticas como compra de votos, abuso de poder econômico e disseminação de desinformação costumam estar associadas à atuação de facções e organizações criminosas.

Por isso, a fiscalização eleitoral passou a ser tratada de forma integrada com o combate a esses grupos, com foco na chamada “asfixia financeira” das práticas ilícitas. A apreensão recorde registrada em 2024 foi citada como um marco desse trabalho e um indicativo da dimensão do problema.

“O nosso trabalho da próxima eleição já começou. Nós não vamos parar. Tudo que nós obtivemos de substrato nesse processo já está sendo trabalhado para que a gente chegue ao pleito de 2026 ainda mais preparado para esse enfrentamento”, destacou Rodrigues.

Preservar a liberdade do voto

Para a presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministra Cármen Lúcia, as medidas buscam preservar a essência do processo democrático. Segundo ela, o foco é impedir qualquer tentativa de captura da liberdade de escolha do eleitor, seja por pressão econômica, uso indevido de tecnologia ou interferência ilegal.

“A eleição é um processo pelo qual cada eleitora e cada eleitor escolhe livremente o seu representante, sem se submeter a pressões internas, à captura da liberdade de escolha ou a abusos de quem quer que seja”, afirmou a ministra.

Números de 2024 reforçam preocupação

O histórico recente sustenta o alerta. Nas eleições municipais de 2024, a Operação Eleições registrou 3.089 crimes eleitorais apenas no primeiro turno. As ocorrências mais frequentes foram boca de urna (1.170), compra de votos ou corrupção eleitoral (498), propaganda irregular (384), violação ou tentativa de violação do sigilo do voto (269) e desobediência a ordens da Justiça Eleitoral.

Durante a operação, foram apreendidos R$ 638.654 em dinheiro, além do registro de 536 prisões — incluindo 23 candidatos — e 53 apreensões de veículos usados no transporte irregular de eleitores.

O que é compra de votos

O advogado eleitoralista Newton Lins explica que a legislação considera crime eleitoral qualquer tentativa de oferecer vantagem ao eleitor em troca do voto, mesmo que a promessa não se concretize.

“Isso pode envolver dinheiro, bens, favores pessoais ou benefícios futuros. A lei não exige que haja entrega da vantagem nem pedido explícito de voto. Basta a intenção de influenciar a vontade do eleitor”, afirma.

A prática está prevista no artigo 41-A da Lei nº 9.504/1997. Segundo o especialista, ainda são comuns ações disfarçadas de assistência social durante campanhas, como distribuição de cestas básicas, combustível, roupas, óculos, dentaduras e até promessas de emprego.

Lins alerta que o eleitor que aceita a vantagem também comete ilícito eleitoral. “A compra de votos é uma relação objetiva entre quem oferece e quem aceita. Trata-se de corrupção eleitoral”, diz.

Abuso de poder econômico

O abuso de poder econômico ocorre quando o uso excessivo de recursos financeiros compromete a igualdade de condições entre os candidatos. As punições incluem multa, cassação do registro ou do diploma e declaração de inelegibilidade por oito anos, conforme a Lei da Ficha Limpa, podendo haver perda imediata do mandato.

Auditorias nas urnas

O TSE afirma que mantém uma série de mecanismos para garantir a integridade do sistema eletrônico de votação. Entre eles estão testes da urna, testes de confirmação, auditorias de autenticidade, integridade e biometria, além da fiscalização dos códigos-fonte por entidades credenciadas e universidades.

Também estão previstas cerimônias de assinatura digital e lacração dos sistemas, auditorias no dia da votação e possibilidade de análises posteriores, garantindo a cadeia de custódia das informações.

Consulta pública

Entre os dias 3 e 5 de fevereiro de 2026, o TSE realizará audiências públicas para receber sugestões da sociedade civil sobre o aperfeiçoamento das resoluções que vão orientar as eleições gerais. As normas devem ser aprovadas pelo plenário do tribunal até 5 de março.