Comerciantes de Anhanduí defendem permanência das barracas na BR-163

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Barraca na BR-163 em Anhanduí (Foto: Google Maps)

A continuidade das barracas e estruturas localizadas às margens da rodovia federal BR-163 no distrito de Anhanduí, em Campo Grande, foi defendida pelos comerciantes e moradores locais nessa quarta-feira (25), durante audiência pública promovida pela Câmara Municipal. Na oportunidade, a comunidade também colocou em pauta a segurança viária com a eventual duplicação da pista prevista pela concessionária Motiva Pantanal, responsável pela administração da rodovia no trecho que corta o estado de Mato Grosso do Sul.

No evento, o presidente da Associação de Moradores do Distrito de Anhanduí, Genivaldo Pedroso, afirmou que a remoção das barraquinhas do ponto de origem é um retrocesso. Ele também cobrou uma definição sobre o assunto, já que desde a privatização da BR-163 vem sendo discutido, gerando apreensão entre os comerciantes. “Fica um ‘diz que me disse’, que vão tirar, não vão tirar. Os proprietários de barracas estão muito preocupados com isso. Se tirar, é um retrocesso. Essas barracas são o ganha-pão de muita gente”, disse.

A comerciante Marluce Nantes é uma dessas pessoas que sobrevive exclusivamente da venda dos produtos à beira da estrada. “Tem gente aqui há 30, 35 anos”, afirmou, relatando que não são apenas os comerciantes das barracas, mas também os vendedores de doces, pimenta, artesanato.  “Todos vão ficar sem ganhar. Não é só a gente da banca, é um ciclo, envolve um monte de gente”, completou, emendando ainda que a remoção das barracas representaria o fim de Anhanduí. “Não vejo aqui sem as bancas!”, finalizou.

Já o produtor rural Sebastião Gomes mencionou a preocupação da comunidade local com o aumento no fluxo de veículos, bem como a velocidade destes na área urbana do distrito. “Tirando as barracas, aumentará o fluxo de carros e a velocidade. Além de prejudicar as famílias, vai matar o povo de Anhanduí”, comentou na audiência pública, alertando que muitos não terão a consciência de reduzir a velocidade, já que não terão mais obstáculos pelo caminho.

Sobre a possibilidade de mudança das barracas para outro local, a comerciante Claudete Soares da Silva considera ser inviável, citando exemplo de ações semelhantes em outros municípios que não deram certo. “Vendemos para turistas. A pessoa quer parar o carro, comprar e ir embora. Estamos aqui há décadas. Tem barraca que passou de mãe para a filha. Temos direito de reivindicar patrimônio histórico, porque temos tempo para isso”, defendeu.

Comerciantes de Anhanduí defendem permanência das barracas na BR-163
Foto: CMCG

A audiência pública aconteceu no ginásio de esportes de uma escola local. Na oportunidade, foi apresentado aos moradores e comerciantes um projeto de lei (PL 12.252/25) que prevê o tombamento histórico das barracas, impedindo que sejam demolidas ou alteradas, garantindo a preservação. Pela proposta, intervenções, reformas, ampliações, modificações estruturais ou remoções das barracas somente poderão ocorrer mediante prévia autorização do órgão municipal competente.

“São um marco cultural do Distrito de Anhanduí, sendo amplamente reconhecidas pela comercialização de produtos artesanais, doces caseiros, conservas, pimentas e demais gêneros produzidos por famílias locais, atividade que se consolidou como expressão legítima da cultura popular, da economia criativa e da memória coletiva da comunidade, integrando o modo de viver e de produzir característico da região”, destacou o vereador André Salineiro, autor da matéria.

Durante a Audiência Pública, ele reforçou que pedirá apoio dos demais vereadores para que o projeto seja votado com celeridade na Câmara Municipal. “Quanto mais pessoas nos ajudarem, melhor”, reforçou, acrescentando que no dia 11 de março deve ir a Brasília (DF) para tratar do Macro Anel de Campo Grande e também da questão específica do Distrito de Anhanduí. Por vídeo, os deputados federais Beto Pereira, Rodolfo Nogueira e Luiz Ovando enviaram mensagem, defendendo a discussão ampla sobre o assunto e declarando apoio.

Além da questão da permanência das barracas, o vereador Junior Coringa criticou a cobrança de pedágio aos moradores do distrito que precisam se deslocar para outras regiões da cidade de Campo Grande. Ele relatou que já tramita na Casa de Leis projeto de sua autoria para que os moradores do distrito possam fazer um cadastro e ficarem isentos desse pagamento. “A CCR MS Via ilhou Anhanduí, fazendo com que o morador pague para ir a Campo Grande.” Ele também defende o tombamento. “Cultura e tradição não se negociam”, pontuou.

Elenilton Dutra, subprefeito do distrito, citou que os moradores foram castigados pelo pedágio. “O empresário deixa de investir por conta disso. Supermercados, gás, tudo aqui é mais caro. Uma dificuldade imensa”, disse. Ele defendeu a união de forças e citou outras melhorias necessárias, como asfalto e ampliação do horário do posto de saúde. A Motiva Pantanal não enviou nenhum representante para a audiência pública, alegando necessidade de um estudo preciso, técnico e definitivo sobre a questão.

Confira a nota da Motiva Pantanal sobre o assunto:

A Motiva Pantanal recebeu o convite para participar da audiência pública externa a ser realizada no Distrito de Anhanduí, agradece a iniciativa e reconhece a importância do espaço institucional para o diálogo com a comunidade local.

Neste momento, o tema encontra-se em fase absolutamente inicial de avaliação interna, com a realização de levantamentos e diagnóstico técnico preliminar, sem qualquer definição ou deliberação tomada até o momento.

A concessionária esclarece ainda que não há processo de realocação em andamento envolvendo comerciantes instalados às margens da BR-163/MS. Trata-se exclusivamente de estudo técnico para compreender a realidade social e econômica local. A concessionária entende que eventuais manifestações públicas devem ocorrer após o amadurecimento técnico do tema e alinhamento com os entes competentes.

A Motiva Pantanal informa, ainda, que o tema será tratado de forma institucional, em conjunto com o Governo do Estado e a Prefeitura de Campo Grande, garantindo que todas as partes envolvidas possam participar da discussão.

A Motiva Pantanal reafirma seu compromisso com a transparência, a segurança viária, o cumprimento do contrato e o respeito às dinâmicas sociais e econômicas da comunidade local.