Dólar em queda, IR zerado e juros no radar: o que muda no bolso do trabalhador em 2026

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Nova faixa de isenção do IR deve gerar economia média de R$ 300 mensais (Foto: Marcelo Camargo/ Agência Brasil)

Nova faixa de isenção do Imposto de Renda e expectativa de corte da Selic criam cenário mais favorável ao consumo, mas efeitos tendem a ser graduais

O início de 2026 trouxe sinais que começam a redesenhar o cenário econômico do país — e que podem chegar, ainda que aos poucos, ao bolso do trabalhador. A combinação entre a nova faixa de isenção do Imposto de Renda, a valorização do real frente ao dólar e a expectativa de queda dos juros cria um ambiente mais favorável ao consumo doméstico e ao crédito.

Na última semana, o dólar caiu ao menor patamar desde maio de 2024, enquanto o Banco Central manteve a taxa básica de juros em 15% ao ano pela quinta reunião consecutiva, mas sinalizou que um ciclo de cortes pode começar já em março. Ao mesmo tempo, o ouro voltou a se valorizar no mercado internacional, refletindo um cenário externo ainda marcado por incertezas.

Segundo analistas, esses movimentos não produzem efeitos imediatos, mas ajudam a aliviar pressões sobre a inflação e o custo do crédito ao longo do tempo. “Os impactos para o consumidor tendem a ser graduais. As empresas passaram muito tempo com margens comprimidas e, num primeiro momento, a tendência é recompor essas margens antes de repassar reduções de custos”, explica Hulisses Dias, fundador da Beginity Capital.

Ainda assim, a simples sinalização do Banco Central já influencia o mercado. “Expectativas melhores reduzem o custo de capital das empresas e criam um ambiente mais favorável para o crédito”, afirma Dias.

Nova faixa de isenção do IR

Desde 1º de janeiro, trabalhadores com renda mensal de até R$ 5.000 passaram a ter isenção total do Imposto de Renda. A mudança representa uma economia média de cerca de R$ 300 por mês, valor que tende a circular no comércio e nos serviços.

Para o professor de economia do Ibmec Brasília, Renan Silva, a medida é um avanço importante, já que a faixa de isenção estava congelada desde 2015. “Cerca de 15 milhões de brasileiros deixam de pagar o imposto, o que pode gerar uma economia anual superior a R$ 4,3 mil para quem ganha R$ 5.000 por mês”, estima.

Ele ressalta, no entanto, que a atualização não recompõe totalmente as perdas causadas pela inflação acumulada nos últimos anos. “Entre 2015 e 2022, a inflação passou de 50%, enquanto muitos salários não acompanharam esse ritmo”, diz.

Dólar em queda

A valorização do real também contribui para reduzir custos na economia. Na quinta-feira (29), o dólar fechou cotado a R$ 5,19, influenciado pela entrada recorde de capital estrangeiro e pela volatilidade política nos Estados Unidos.

Mesmo para quem não consome produtos importados, o impacto é sentido de forma indireta. “Insumos como trigo, milho, aço e petróleo são cotados em dólar. Quando a moeda cai, os custos de produção tendem a diminuir, o que ajuda a conter a inflação ao longo do tempo”, afirma Dias.

Esse movimento, segundo ele, abre espaço para cortes mais expressivos na taxa de juros no futuro.

Ouro em alta

Na contramão do dólar, o ouro segue em valorização e renovou máximas históricas nos últimos 12 meses, alcançando cerca de R$ 25,2 mil no mercado internacional. O avanço reflete tensões geopolíticas e a busca por ativos considerados mais seguros.

Para o consumidor comum, o efeito é indireto. “O ouro também é usado na indústria, mas há limites para o repasse de custos, já que outros metais podem ser utilizados como substitutos”, explica Dias.

Riscos e perspectivas para 2026

Renan Silva projeta um aquecimento do comércio, especialmente no setor de serviços voltados ao consumo interno, como turismo, alimentação e entretenimento. O varejo de tecnologia também tende a se beneficiar da valorização do real, que reduz custos de importação.

O economista alerta, porém, que o aumento da demanda pode pressionar preços. “Se a inflação voltar a subir acima da meta, o Banco Central pode ser obrigado a manter os juros altos por mais tempo ou até elevá-los novamente”, afirma.

Além disso, o calendário eleitoral pode trazer instabilidade. “As eleições de outubro costumam aumentar a volatilidade nos mercados e a aversão ao risco. O cenário atual é positivo, mas exige cautela”, conclui.