Dono do Banco Master negocia delação enquanto PF apura rede de contatos com autoridades

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Vorcaro está preso na Superintendência da PF em Brasília (Foto: Reprodução/SAP)

Mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro citam integrantes do Judiciário, políticos e servidores do Banco Central

A possível delação premiada do empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, abriu uma nova frente nas investigações conduzidas pela Polícia Federal e pode ampliar o alcance do caso para além do sistema financeiro. Preso preventivamente na Superintendência da PF em Brasília, o banqueiro negocia colaborar com as autoridades enquanto a apuração já reúne registros de contatos com integrantes dos Três Poderes.

Segundo investigadores, dados extraídos do celular de Vorcaro indicam interlocuções com autoridades políticas e do Judiciário, material que pode servir de base para uma eventual colaboração formal. A análise dos aparelhos apreendidos revelou trocas de mensagens e referências a autoridades em diferentes contextos ligados às investigações.

Entre os episódios citados está a identificação de registros de mensagens atribuídas ao empresário e direcionadas ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. A Polícia Federal localizou comunicações datadas de 17 de novembro de 2025, dia da primeira prisão do banqueiro.

De acordo com a apuração, Vorcaro teria relatado ao ministro movimentações relacionadas à tentativa de venda do Banco Master e à situação do inquérito em andamento. Parte das respostas, porém, não foi preservada por supostamente ter sido enviada por meio de recurso de visualização única. O gabinete do ministro afirmou que os registros não comprovam que as mensagens tenham sido efetivamente recebidas por Moraes.

Contrato com advogada ligada ao ministro

A investigação também aponta relação profissional entre o Banco Master e a advogada Viviane Barci, esposa de Moraes. Ela firmou contrato para prestar serviços jurídicos à instituição financeira.

Segundo a advogada, foram produzidos 36 pareceres jurídicos e realizadas 94 reuniões de trabalho após a contratação. Viviane afirma que sua atuação foi exclusivamente consultiva, voltada a temas de compliance e à implementação do código de ética do banco, e que não atuou em processos do Master no STF.

Toffoli se declarou suspeito

Outro desdobramento envolve o ministro Dias Toffoli, que decidiu se declarar suspeito em processos relacionados ao Banco Master após a Polícia Federal identificar menções ao nome dele em documentos apreendidos.

Os registros fazem referência a operações comerciais envolvendo empresa ligada à família do ministro, que vendeu participação em um resort no Paraná a fundos associados ao banco. Toffoli afirma que não participa da gestão da empresa e que não teve envolvimento direto nas negociações.

Menções a autoridades políticas

A apuração também encontrou referências ao senador Ciro Nogueira (PP-PI). Mensagens extraídas do celular do empresário mostram Vorcaro tratando o parlamentar como “grande amigo de vida” e comemorando a apresentação de uma emenda à PEC da autonomia do Banco Central que ampliava o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), medida considerada favorável ao Banco Master.

Até o momento, não há investigação formal contra o senador. Ele nega proximidade com o empresário, afirma não ter recebido valores e sustenta que a simples menção ao seu nome não permite identificação precisa de interlocução.

O governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), também foi citado em depoimento. Vorcaro afirmou ter discutido com ele a operação de venda do Banco Master ao BRB (Banco Regional de Brasília). O governador nega ter tratado diretamente do tema com o empresário e diz que eventuais tratativas institucionais ocorreram por meio da direção do banco público.

Suspeita de esquema com servidores do Banco Central

A investigação da Polícia Federal aponta ainda a existência de um suposto esquema envolvendo servidores do Banco Central. Segundo a corporação, funcionários da autarquia teriam recebido pagamentos ilícitos em troca de favorecimento e prestação de consultoria informal ao Banco Master.

Foram identificados os servidores Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana, posteriormente afastados das funções. A PF afirma que eles mantinham um grupo exclusivo de mensagens com Vorcaro para discutir estratégias, compartilhar documentos e orientar o banco em processos administrativos e reuniões com dirigentes do BC.

De acordo com os investigadores, os servidores atuariam como uma espécie de consultoria paralela voltada à defesa dos interesses privados da instituição financeira. Há indícios de que reuniões ocorreram fora das dependências do Banco Central.

A polícia também aponta que um dos servidores teria alertado previamente o empresário sobre movimentações financeiras do banco que haviam gerado alertas nos sistemas internos de monitoramento, permitindo ajustes antes de questionamentos regulatórios.

Negociação de colaboração

Daniel Vorcaro assinou um compromisso de confidencialidade com a Polícia Federal e com a Procuradoria-Geral da República, etapa considerada preliminar para a formalização de um acordo de delação premiada.

Caso seja homologada, a colaboração poderá detalhar relações políticas, decisões regulatórias e estratégias internas do Banco Master, ampliando o escopo das investigações em curso. Até o momento, não há prazo definido para conclusão das negociações.