Entenda como o voto define quanto dinheiro cada partido recebe no Brasil

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Fundo Eleitoral e Fundo Partidário distribuem bilhões conforme resultados nas urnas

Distribuição de fundos públicos privilegia legendas com maior desempenho eleitoral

O caminho do voto nas urnas não termina na escolha dos eleitos. No Brasil, cada voto também influencia diretamente quanto dinheiro público os partidos políticos receberão nos anos seguintes — um mecanismo que ajuda a explicar por que legendas maiores tendem a se fortalecer, enquanto siglas menores enfrentam dificuldades para se manter ativas.

O financiamento partidário no país é baseado principalmente em recursos públicos, distribuídos conforme o desempenho eleitoral das legendas. Quanto mais votos e parlamentares eleitos um partido conquista, maior é a parcela de recursos recebida por meio do Fundo Partidário e do Fundo Eleitoral.

Para acessar esses valores, os partidos precisam atingir critérios mínimos definidos pela legislação eleitoral, como número de votos válidos e representantes eleitos. Quem não alcança esses índices entra na chamada cláusula de desempenho e perde acesso a parte dos recursos públicos e ao tempo de propaganda gratuita no rádio e na televisão.

Além do financiamento público, as siglas também podem receber doações de pessoas físicas. Desde 2015, porém, doações feitas por empresas estão proibidas no Brasil.

Como o voto influencia o financiamento

A lógica de distribuição dos fundos públicos liga diretamente o resultado das eleições ao financiamento político. Partidos com maior votação e mais representantes no Congresso passam a receber fatias maiores dos recursos, tanto para manutenção das atividades quanto para campanhas eleitorais futuras.

Na prática, isso significa que o voto do eleitor define não apenas quem ocupará cargos públicos, mas também o tamanho do orçamento partidário nos anos seguintes.

Fundo Eleitoral financia campanhas

O Fundo Eleitoral é destinado exclusivamente ao custeio das campanhas políticas. A divisão dos recursos considera principalmente o desempenho dos partidos nas eleições anteriores e o tamanho das bancadas no Congresso Nacional.

A distribuição ocorre da seguinte forma:

  • 2% divididos igualmente entre todos os partidos;
  • 35% conforme os votos obtidos para a Câmara dos Deputados;
  • 48% conforme o número de deputados federais eleitos;
  • 15% conforme o número de senadores.

Para este ano, o valor aprovado para o Fundo Eleitoral é de aproximadamente R$ 5 bilhões, provenientes do Orçamento da União.

Fundo Partidário mantém estrutura das siglas

Já o Fundo Partidário é voltado à manutenção das atividades permanentes dos partidos, como pagamento de funcionários, manutenção de sedes e despesas administrativas.

A divisão anual segue dois critérios principais:

  • 95% distribuídos conforme o desempenho na eleição para a Câmara dos Deputados;
  • 5% repartidos igualmente entre todos os partidos registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Em 2025, os repasses bateram recorde, com R$ 1,1 bilhão distribuídos a 19 partidos. As maiores fatias ficaram com as legendas que possuem as maiores bancadas na Câmara dos Deputados, como PL e PT.

Quem fica fora da divisão

Nem todos os partidos conseguem acesso aos recursos. Desde 2017, a cláusula de desempenho estabelece exigências mínimas para participação na divisão do Fundo Partidário.

Para as eleições deste ano, as siglas precisam:

  • obter ao menos 3% dos votos válidos nacionais para a Câmara dos Deputados; ou
  • eleger pelo menos 15 deputados federais.

No ano passado, dez partidos ficaram fora da divisão dos recursos públicos, entre eles Agir, Democracia Cristã, Mobiliza, Novo, PCB, PCO, PRTB, PSTU e Unidade Popular.

O cenário impulsionou estratégias como fusões e federações partidárias, nas quais legendas se unem para ampliar representatividade e garantir acesso aos fundos. Atualmente, o Brasil conta com cinco federações partidárias, incluindo alianças como PSOL-Rede e PSDB-Cidadania.

Concentração de recursos

Para especialistas, o modelo tende a concentrar recursos nas siglas maiores. Segundo o professor de Direito Eleitoral Bruno Lorencini, da Universidade de São Paulo e da Universidade Mackenzie, partidos com mais representantes têm maior capacidade de investimento e expansão política.

De acordo com ele, mais recursos significam maior estrutura de campanha, ampliação da presença política e melhores condições para eleger novos candidatos.

Ao mesmo tempo, a cláusula de desempenho busca reduzir a existência de partidos sem representatividade eleitoral significativa, evitando a criação de legendas apenas para acesso a recursos públicos e equilibrando o sistema entre pluralidade política e eficiência partidária.