Entre Pequim e Washington, Brasil enfrenta desafio de não tomar partido

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Recusa do Brasil de entrar no Conselho de Paz de Trump pode gerar ruído diplomático com os EUA (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

Governo tenta preservar relações estratégicas enquanto rivalidade global avança para temas sensíveis

Em um tabuleiro internacional cada vez mais tensionado, o Brasil tenta avançar sem derrubar peças. Mas, nas últimas semanas, o equilíbrio ficou mais difícil: recados vindos de Pequim e movimentos de Washington colocaram Brasília diante de um desafio delicado — preservar o diálogo com China e Estados Unidos sem ser empurrado para um dos lados.

Declarações do presidente chinês Xi Jinping, que cobraram do governo Lula uma atuação mais firme em defesa do papel da ONU, e críticas indiretas à proposta do ex-presidente dos EUA Donald Trump de criar um “Conselho de Paz” para a Faixa de Gaza acenderam um alerta no Itamaraty. A avaliação é de que o cenário internacional mais polarizado reduz o espaço de manobra do Brasil.

A sinalização chinesa ocorre justamente quando o governo brasileiro tenta evitar que a rivalidade entre as duas maiores potências globais se traduza em pressões diretas sobre decisões estratégicas do país.

Para o professor João Alfredo Lopes Nyegray, doutor em internacionalização e especialista em geopolítica e negócios internacionais da PUC-PR, o Brasil só consegue sustentar relações estratégicas com China e Estados Unidos se abandonar a ideia de neutralidade simbólica e apostar em pragmatismo.

“Na prática, o Brasil só consegue sustentar uma parceria estratégica simultânea com China e Estados Unidos se operar com uma lógica de ‘autonomia por diversificação’, e não de neutralidade retórica”, afirma.

Segundo ele, a estratégia não significa “ficar em cima do muro”, mas negociar com ambos os lados sem alinhamento automático nem gestos ideológicos. “O objetivo é transformar a rivalidade em margem de manobra, usando a interdependência econômica como argumento de reciprocidade”, explica.

Limites do equilíbrio

O especialista alerta, porém, que essa margem se estreita quando a disputa ultrapassa o comércio e entra em áreas sensíveis, como segurança e tecnologia.

“Semicondutores, telecomunicações, dados, satélites, cibersegurança e infraestrutura crítica tendem a ser tratados por Washington e Pequim como bens estratégicos, nos quais a ambiguidade é menos tolerada”, diz Nyegray.

Nesses temas, avalia o professor, o Brasil pode ser pressionado a fazer escolhas mais explícitas, sobretudo em projetos de infraestrutura e cadeias tecnológicas.

Capital diplomático e restrições

A cientista política e professora de relações internacionais Denilde Holzhacker afirma que o Brasil tem tradição de atuação multilateral e costuma construir alianças amplas, especialmente entre países do Sul Global — algo valorizado por Pequim.

“Essa é a percepção do Xi Jinping: de que Brasil e China seriam capazes de influenciar essa construção no âmbito multilateral”, afirma.

Ela pondera, no entanto, que o prestígio diplomático brasileiro não se traduz automaticamente em poder de influência dentro da ONU. “Temos um grande soft power, mas não dispomos de capacidade material para sustentar iniciativas de maior escala, especialmente em termos de financiamento”, explica.

Conselho de Paz de Trump

Sobre o “Conselho de Paz” proposto por Donald Trump, Nyegray avalia que a iniciativa tende a funcionar como um mecanismo paralelo, fora das estruturas tradicionais do multilateralismo.

“O formato tem menos cara de arquitetura diplomática estável e mais de instrumento político transacional”, diz. Segundo ele, acordos rápidos e convites seletivos podem reduzir o espaço de organismos multilaterais clássicos. “A paz passa a ser tratada como um arranjo ad hoc liderado por Washington.”

Risco de ruído diplomático

Para Holzhacker, uma recusa direta do Brasil à iniciativa americana, sem sinalizações de abertura ou cooperação em outras frentes, pode gerar desgaste com os Estados Unidos.

“O Brasil simplesmente dizer ‘não’ ao Trump, sem nenhuma contrapartida, tende a produzir ruído diplomático”, afirma.

Ela destaca que o desafio do governo é mostrar que não há alinhamento automático com Washington, mas que a cooperação segue ativa em áreas consideradas estratégicas pelos EUA.

Nyegray acrescenta que, em um contexto em que tarifas e medidas comerciais são usadas como instrumentos de pressão, eventuais retaliações podem surgir de forma indireta. “Não necessariamente como sanções explícitas, mas como medidas com aparência técnica”, alerta.

Espaço de manobra menor

Na avaliação dos especialistas, o objetivo do governo Lula é atravessar essa disputa sem se tornar alvo prioritário de nenhuma das potências — uma tarefa cada vez mais complexa.

“Esse é o esforço do Brasil: equilibrar-se entre as principais potências e sair ileso. Mas o espaço para isso está diminuindo”, afirma Holzhacker.

Para ela, o risco é que a relação entre Brasil e China passe a ser vista por Trump como um problema estratégico, elevando o nível de pressão sobre Brasília. “A partir do momento em que essa relação for tratada como prejudicial aos interesses dos EUA, o Brasil tende a ser mais cobrado”, conclui.