Pela primeira vez em Mato Grosso do Sul, a juventude indígena participou oficialmente do Fórum Regional de Juventude, iniciativa que percorre o Estado para ouvir jovens e construir propostas que irão subsidiar a renovação do Plano Estadual da Juventude. A escuta inédita aconteceu durante a IX Assembleia da Juventude Terena – “Guardiões da memória, construtores do amanhã”, realizada em 7 de fevereiro, na Aldeia Cachoeirinha, Terra Indígena Cachoeirinha.
A atividade integrou o Circuito Avança Juventude e foi promovida pela Secretaria de Estado da Cidadania de Mato Grosso do Sul, por meio da Subsecretaria de Políticas Públicas para Juventude, com apoio da Subsecretaria de Políticas Públicas para Povos Originários, em parceria com o Conselho Estadual da Juventude de Mato Grosso do Sul e com a própria Assembleia da Juventude Terena.

Mais do que uma agenda institucional, o encontro simboliza a mudança, de ir até os territórios. Ao todo, 114 jovens das etnias Terena, Kinikinau, Guarani (Kaiowá e Ñandeva) e Kadiwéu participaram da construção coletiva, levantando mais de 30 propostas que agora passam a integrar o relatório oficial do Plano.
O subsecretário de Políticas Públicas para Juventude, Jessé Cruz, destacou o caráter histórico da escuta. “Foi um grande avanço das políticas públicas para a juventude. Desde o ano passado estamos mobilizados para ouvir as diversas juventudes de Mato Grosso do Sul. Ouvir a juventude indígena, que levantou mais de 30 propostas, com diferentes etnias representadas, foi de enorme significado. É descer do gabinete, ir para a ponta para ouvir e retornar, transformando essa fala em plano, em decreto e em política pública efetiva”, afirmou.
Protagonismo indígena

Para os próprios jovens, o espaço consolida um movimento que já vinha sendo construído dentro das comunidades. Coordenador da Juventude Terena no Estado e agente indígena de saúde, Jean Carlos, 26 anos, participa da assembleia desde 2023 e explica que o encontro é um espaço essencial de articulação.
“A assembleia é um movimento da juventude Terena onde a gente discute como está a educação, a saúde, as políticas públicas, a cosmologia do povo Terena. Na verdade, não é só do povo Terena, a gente também recebe parentes dos povos Guarani/Kaiowá, Kadiwéu e Kinikinau. É um espaço de discussão da juventude indígena do Estado”, afirmou.
Segundo ele, a presença do Governo do Estado dentro da aldeia fortalece a construção conjunta de soluções.
“A participação do governo é fundamental durante as assembleias, pois é através dela que conseguimos parcerias para trazer melhorias para a juventude indígena, como acesso mais fácil ao ensino superior, ações voltadas à saúde mental e projetos para tirar a juventude do vício das drogas. Temos a Secretaria de Estado da Cidadania, a Subsecretaria da Juventude e a Subsecretaria de Povos Indígenas como grandes parceiras. Ir até lá ouvir o que a gente precisa é fundamental”, destacou.
Durante o Fórum, as propostas apresentadas pela juventude incluíram maior acesso de jovens indígenas a espaços dentro do próprio governo. “Sabemos que existem cargos destinados à juventude indígena que muitas vezes não são ocupados por nós. Também discutimos a criação de eventos esportivos dentro das comunidades, além de propostas sobre território, saúde, educação e diversidade”, relatou Jean.

A comunicadora Nadiely Vitória De Matos Benites, 18 anos, da etnia Terena, da Terra Indígena Taunay/Ipegue, também avaliou a experiência como transformadora. “A Assembleia foi muito positiva, como um todo. É um espaço muito rico de escuta, aprendizado e construção coletiva, onde a juventude realmente teve voz. A programação foi bem diversa e conseguiu dialogar tanto com a valorização da nossa cultura quanto com temas urgentes da nossa realidade atual”, afirmou.
Para Nadiely, um dos momentos mais marcantes foi a conexão entre tradição e políticas públicas. “O que eu mais gostei de acompanhar foi a forma como educação, cultura e políticas públicas se conectaram ao longo da Assembleia. A oficina de cerâmica tradicional, por exemplo, foi muito marcante, porque mostrou na prática como os saberes ancestrais seguem vivos e sendo transmitidos, principalmente pelas mulheres Terena, fortalecendo nossa identidade. Também achei muito importante as mesas sobre educação e políticas públicas, que trouxeram debates reais sobre acesso, permanência no ensino superior, saúde mental e a necessidade de políticas pensadas a partir dos territórios”, destacou.
Escuta estruturada
A metodologia do Fórum foi organizada em três etapas: plenária inicial, grupos por eixo temático e plenária final de socialização. Os debates foram divididos em cinco eixos: Educação, Profissionalização, Trabalho e Renda; Cultura, Esporte e Lazer; Participação Social, Saúde, Diversidade e Igualdade; Sustentabilidade, Meio Ambiente, Território e Mobilidade; e Saúde Mental.

O técnico da Subsecretaria de Políticas Públicas para Povos Originários, Heliton Cavanha, que mediou o eixo de Cultura, Esporte e Lazer, reforçou a importância da escuta direta. “Foi muito produtivo ouvir a juventude. Eles trouxeram demandas sobre cultura, esporte e lazer, que são políticas que fazem falta no dia a dia. Tivemos participação muito forte de diferentes povos. Fortalecer a voz da juventude é fortalecer o futuro dos territórios”, afirmou.
Processo de renovação
O Fórum Regional de Juventude integra o processo de renovação do Plano Estadual da Juventude. Em 2025, sete fóruns regionais foram realizados em diferentes regiões de Mato Grosso do Sul. Em 2026, a edição voltada às juventudes indígenas amplia a representatividade e incorpora as especificidades culturais, sociais e territoriais ao planejamento estadual.
Ao levar o debate para dentro da aldeia, o Estado inaugura uma nova etapa na formulação de políticas públicas: aquela em que a juventude indígena deixa de ser apenas destinatária das ações e passa a ser autora das propostas que irão orientar o futuro.



















