Longas jornadas e pressão profissional reduzem qualidade de vida de médicos brasileiros

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Sobrecarga no trabalho é principal fator que afeta qualidade de vida de médicos no Brasil, aponta estudo (Foto: Pexels)

Pesquisa com mais de 2 mil profissionais indica que renda elevada não garante bem-estar na carreira

A rotina intensa dentro de hospitais, plantões prolongados e a pressão constante por decisões rápidas têm pesado mais do que o salário na vida dos médicos brasileiros. Um levantamento nacional aponta que a sobrecarga de trabalho é hoje o principal fator associado à qualidade de vida desses profissionais, independentemente do nível de renda.

O dado faz parte do Índice Afya MedQoL, estudo baseado em respostas de 2.005 médicos de todas as regiões do país e publicado na revista científica British Medical Journal Open. A pesquisa avaliou aspectos como qualidade de vida, apoio institucional e níveis de estresse percebido no exercício da profissão.

Segundo o levantamento, a pressão no ambiente de trabalho é mais intensa entre mulheres, médicos em início de carreira e profissionais que cumprem jornadas superiores a 60 horas semanais. O cenário reforça a relação direta entre carga horária elevada e desgaste físico e emocional.

De acordo com o pesquisador Eduardo Moura, a própria estrutura da carreira médica contribui para esse quadro. “A carreira médica é muito pressionada por expectativas, o que frequentemente resulta em jornadas superiores às de outras profissões”, afirma.

Apesar da remuneração elevada em parte da categoria, o estudo indica que ganhos financeiros não garantem melhor qualidade de vida. Médicos com renda acima de R$ 25 mil mensais não apresentaram índices significativamente superiores de bem-estar, sugerindo um limite entre renda e equilíbrio pessoal.

Entre os profissionais mais jovens, o impacto tende a ser maior. Muitos atuam em unidades com menor estrutura e alta demanda por atendimento, o que aumenta o nível de estresse logo nos primeiros anos da carreira.

Outro fator que agrava o ambiente profissional é a violência em unidades de saúde. Dados do Conselho Federal de Medicina apontam que, em média, nove médicos sofrem algum tipo de agressão por dia no Brasil — realidade que, embora não tenha sido mensurada diretamente na pesquisa, aparece como elemento recorrente nas condições de trabalho relatadas pela categoria.

Entre as soluções apontadas pelos pesquisadores estão a redução da carga horária, o fortalecimento do apoio institucional e a ampliação de iniciativas voltadas ao bem-estar dos profissionais, como acompanhamento psicológico e programas de cuidado com a saúde mental.