Mais de R$ 10 bilhões seguem esquecidos em bancos, aponta Banco Central

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Medo de golpes e burocracia mantêm bilhões esquecidos em bancos

Sistema de Valores a Receber mostra alta no montante disponível para saque

Mais de R$ 10 bilhões continuam parados em bancos e instituições financeiras à espera dos donos. É o que mostra a atualização mais recente do Banco Central sobre o Sistema de Valores a Receber (SVR), que reúne informações sobre dinheiro esquecido por brasileiros ao longo dos anos.

Segundo os dados, referentes a novembro do ano passado, o montante disponível para resgate chegou a R$ 10,025 bilhões. O valor representa alta em relação a outubro, quando o total era de R$ 9,927 bilhões. Esses recursos podem ter origem em contas encerradas, tarifas cobradas indevidamente, saldos residuais de consórcios, cooperativas de crédito e instituições financeiras que já foram liquidadas.

De acordo com o Banco Central, 49.310.773 pessoas físicas têm valores a receber no sistema. A consulta é gratuita e pode ser feita exclusivamente pelo site oficial do BC, na área “Valores a Receber”.

Apesar da ampla divulgação do programa, a adesão segue abaixo do esperado. Para especialistas, o cenário atual vai além do simples esquecimento e envolve fatores como desinformação, receio de golpes e dificuldades no acesso às plataformas digitais.

Em entrevista ao R7, o advogado Fábio Scolari, especialista em direito público e do consumidor, explicou por que muitos brasileiros ainda deixam de consultar o sistema. “Parte da população acredita que os valores são baixos e não prioriza a busca. Além disso, há um nível crescente de desconfiança, principalmente diante do aumento de golpes que prometem a liberação de dinheiro”, afirmou.

Outro entrave, segundo ele, está no próprio acesso ao SVR. “É necessário ter familiaridade com ferramentas digitais, como a conta gov.br em nível de segurança mais elevado e a autenticação em duas etapas, o que ainda dificulta o acesso para muitas pessoas”, explicou.

Scolari reforça que o procedimento é seguro quando feito pelos canais oficiais. “Trata-se de um sistema legítimo, criado justamente para devolver valores aos seus titulares. O principal cuidado é usar exclusivamente os meios disponibilizados pelo Banco Central. O maior risco hoje está nos golpes, com links falsos e pedidos de dados pessoais”, alertou.

A burocracia necessária para garantir a segurança das informações também acaba afastando parte da população, avalia o advogado. “As exigências, como conta gov.br em nível elevado e, em muitos casos, o uso de chave Pix para devolução, são justificáveis para prevenir fraudes, mas dificultam o acesso de quem tem menor familiaridade com tecnologia.”

O medo de fraudes digitais aparece como um dos principais fatores para a baixa procura. Segundo Scolari, há um volume significativo de tentativas de golpe relacionadas ao tema, especialmente por meio de mensagens em redes sociais, aplicativos de conversa e e-mails. Ele destaca que o Banco Central não envia mensagens, não solicita pagamentos e não pede senhas.

Outro ponto de atenção é o prazo para o resgate dos valores. “A legislação prevê que recursos não reclamados por longos períodos podem ser transferidos ao Tesouro Nacional, após a publicação de editais e a abertura de prazos para contestação. Por isso, é recomendável que o cidadão consulte o sistema o quanto antes”, disse.

O advogado lembra ainda que os bancos não são obrigados a avisar individualmente os clientes sobre a existência de valores esquecidos. “Muitos recursos estão vinculados a contas antigas, contratos encerrados ou cadastros desatualizados, o que inviabiliza a comunicação direta em todos os casos.”

A orientação final é redobrar os cuidados durante a consulta. “O cidadão deve acessar diretamente o site oficial do Banco Central, não clicar em links recebidos por mensagens e nunca pagar taxas. Caso haja valores disponíveis, é importante seguir as instruções do sistema, guardar o protocolo e manter os dados atualizados. Em situações de falecimento do titular, é essencial reunir a documentação sucessória e, se necessário, buscar orientação jurídica.”