Mercosul e União Europeia assinam acordo de livre-comércio em cerimônia no Paraguai

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Representantes da UE e de países do Mercosul assinam acordo de livre-comércio (Foto: Reprodução/Governo do Paraguai)

Líderes destacam cooperação internacional e impacto positivo para os dois blocos

Depois de mais de duas décadas de negociações, idas e vindas diplomáticas e resistências internas, Mercosul e União Europeia deram neste sábado (17) o passo mais aguardado desde 1999: a assinatura do acordo de livre-comércio entre os dois blocos, que passa a integrar um mercado de 720 milhões de pessoas e um PIB combinado de US$ 22 trilhões.

A cerimônia foi realizada em Assunção, no Paraguai, e reuniu os chefes de Estado dos países do Mercosul — com exceção do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O Brasil foi representado pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. Pela União Europeia, participaram a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa.

Lula optou por não comparecer ao evento e, na véspera, manteve uma reunião bilateral com Ursula von der Leyen no Rio de Janeiro. Mesmo ausente, o presidente brasileiro foi citado como um dos principais articuladores do processo pelo presidente paraguaio Santiago Peña, que atualmente ocupa a presidência do Mercosul.

“Este é um acontecimento histórico. Não chegaríamos até aqui sem o presidente Lula”, afirmou Peña ao abrir a solenidade. Segundo ele, o acordo representa um caminho para superar conflitos históricos e inaugurar uma nova etapa de cooperação entre os países da região.

O tratado cria uma das maiores zonas de livre-comércio do mundo. Pelo texto, o Mercosul se compromete a eliminar tarifas sobre 91% das exportações europeias ao longo de até 15 anos. Já a União Europeia vai retirar gradualmente tarifas sobre 92% das exportações do Mercosul em um período de até dez anos.

Atualmente, os países do Mercosul aplicam tarifas elevadas sobre produtos europeus, como peças automotivas (35%), produtos lácteos (28%) e vinhos (27%). Para a União Europeia, o acordo é considerado o maior já firmado pelo bloco em termos de redução tarifária, com a retirada de cerca de 4 bilhões de euros em impostos sobre exportações.

Durante o evento, Ursula von der Leyen afirmou que o pacto envia uma “mensagem forte ao mundo” ao priorizar o comércio justo e a cooperação internacional. “Escolhemos parceria em vez de isolamento. Queremos gerar empregos, oportunidades e prosperidade para nossas populações”, declarou.

Impacto no Brasil

Um estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) aponta que o Brasil deve ser o principal beneficiado pelo acordo. A projeção é de um impacto positivo de 0,46% no PIB brasileiro até 2040, o equivalente a US$ 9,3 bilhões. Para o Mercosul como um todo, o crescimento estimado é de 0,2%, enquanto a União Europeia teria alta de 0,06%.

Ainda segundo o levantamento, os investimentos no Brasil podem crescer 1,5% em 15 anos, enquanto exportações e importações devem registrar aumento de 3% no mesmo período.

Em 2024, o comércio bilateral entre Mercosul e União Europeia foi estimado em 111 bilhões de euros, com fluxo equilibrado. A UE exporta principalmente máquinas, produtos químicos e equipamentos de transporte, enquanto os países sul-americanos vendem, em maior volume, produtos agrícolas, minerais, celulose e papel.

Além da redução tarifária, o acordo prevê que a abertura gradual de mercados possa baratear produtos no Brasil, como medicamentos, máquinas industriais, veículos e fertilizantes. A implementação será progressiva, com prazos estimados entre 8 e 12 anos.

Concluído após mais de 25 anos de negociações, o entendimento também é visto como estratégico pela União Europeia para diversificar parceiros comerciais, reduzir a dependência da China e garantir acesso a minerais essenciais para a transição energética e industrial do bloco.