Mesmo com corte de juros à vista, crédito continua caro para o consumidor

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(Foto: Folhapiaui)

Cartão de crédito e cheque especial são as últimas modalidades a sentir efeito da queda da Selic

Mesmo com a expectativa de que a taxa básica de juros comece a cair a partir de março, o consumidor brasileiro ainda vai precisar de paciência. Especialistas explicam que a redução da Selic não chega imediatamente ao cartão de crédito, ao cheque especial ou aos financiamentos — e, em alguns casos, pode levar meses para ser percebida no bolso.

A Selic funciona como referência para todo o sistema financeiro, mas não determina diretamente as taxas cobradas nos empréstimos. Segundo César Bergo, professor de mercado financeiro da Universidade de Brasília (UnB), o efeito das decisões do Banco Central ocorre de forma indireta, por meio do custo de captação dos bancos.

“A taxa básica remunera os títulos públicos e influencia outras taxas do mercado, como a DI, que afetam o custo do dinheiro para as instituições financeiras. A partir disso, os bancos aplicam um spread, que inclui inadimplência, custos operacionais e despesas administrativas”, explica.

É justamente esse conjunto de fatores que provoca o atraso entre a decisão do Banco Central e o alívio efetivo para o consumidor. Quanto maior o risco percebido pelo banco, maior tende a ser a taxa cobrada. Por isso, linhas de crédito com garantia costumam reagir mais rápido às mudanças.

“Crédito consignado, por exemplo, costuma ter juros menores porque o risco de inadimplência é reduzido. Essas modalidades sentem o impacto da queda antes das demais”, afirma Bergo.

Cartão de crédito e cheque especial reagem por último

Entre todas as linhas de crédito, o cartão de crédito rotativo e o cheque especial estão entre as que mais demoram a refletir uma eventual queda da Selic. De acordo com o economista e professor de finanças Augusto Mergulhão, essas modalidades estão muito mais ligadas ao risco de inadimplência do que ao custo do dinheiro no mercado.

“O rotativo do cartão e o cheque especial não respondem diretamente à Selic. Eles precificam, sobretudo, o risco de não pagamento. Por isso, são as taxas que só devem ser revistas mais adiante”, explica.

Além disso, os bancos tendem a agir com cautela enquanto o cenário econômico ainda é incerto. “Uma sinalização de queda não garante estabilidade. As instituições esperam mais previsibilidade antes de reprecificar contratos”, completa Mergulhão.

Queda dos juros chega em etapas

Essa cautela cria uma espécie de hierarquia no repasse da redução dos juros. Segundo a advogada Isis Alves Mota, especialista em direito do consumidor, o alívio aparece primeiro nas linhas com menor risco.

“Crédito consignado e financiamentos de veículos e imóveis sentem o impacto antes, porque contam com garantias ou desconto em folha. Já o crédito pessoal e o rotativo do cartão dependem de uma melhora mais consistente do cenário econômico”, afirma.

Ela destaca que o spread bancário — diferença entre o que o banco paga para captar recursos e o que cobra para emprestar — inclui custos que não caem rapidamente, como impostos, despesas administrativas e provisões para inadimplência.

Inadimplência ainda pesa

O nível de endividamento das famílias também influencia o ritmo dessa queda. “Quando a inadimplência está elevada, os bancos revisam suas políticas de crédito com mais cautela, mesmo com juros básicos em trajetória de queda”, explica Isis.

Para Bergo, isso ajuda a explicar a frustração do consumidor. “Grande parte do crédito em circulação foi contratada com taxas altas. À medida que essas operações vencem e novas são feitas, os juros começam a cair de forma gradual”, diz.

A expectativa é que os primeiros efeitos sejam sentidos alguns meses após o início do ciclo de cortes. “Se a redução começar em março, algum impacto pode aparecer entre maio e junho, de forma progressiva”, avalia.

O que o consumidor pode fazer agora

Enquanto o alívio não chega, a recomendação dos especialistas é cautela. “Renegociar dívidas mais caras, alongar prazos e buscar melhores condições pode ajudar a equilibrar o orçamento”, orienta Bergo.

Mergulhão sugere acompanhar o mercado de perto. “Comparar taxas entre bancos e usar ofertas concorrentes como argumento pode ser uma boa estratégia de negociação”, afirma.

Já Isis aponta sinais práticos de mudança. “Redução no valor das parcelas, aumento das ofertas de portabilidade e flexibilização dos critérios de crédito indicam que a queda começou a chegar ao consumidor”, diz.

Até lá, o recado é claro: a queda dos juros tende a acontecer, mas o caminho até o bolso do consumidor é lento — e desigual entre as diferentes modalidades de crédito.