Quatro boxes no Camelódromo de Campo Grande foram lacrados durante a Operação Iscariotes, deflagrada na manhã dessa quarta-feira (16) pela Polícia Federal contra um esquema de contrabando e descaminho de mercadorias importadas do Paraguai. No local, diversos produtos foram apreendidos por não terem a sua origem legal comprovada pelos responsáveis, que são pai e filho, de 46 e 26 anos. Apesar da movimentação desde as primeiras horas da manhã, o centro de comércio popular funcionou normalmente.
Os dois são os principais alvos da investida, que também cumpriu mandados de busca e apreensão em imóveis deles, situados na Rua Bom Sucesso, no bairro Vila Marcos Roberto, e na Rua Guapeva, no condomínio de luxo Alphaville 3. No caso do pai, a empresa dele foi aberta em 15 de abril de 2020, com capital social de R$ 150 mil. O filho tem o CNPJ desde 13 de janeiro de 2021, também com o capital social de R$ 150 mil.
Outros envolvidos no esquema, e que também foram alvos de mandados judiciais, são dois policiais civis lotados em Sidrolândia e na 5ª Delegacia de Campo Grande, sendo um com histórico de envolvimento em outras operações contra o contrabando, um bombeiro, um policial militar da reserva e três policiais rodoviários federais também aposentados.
Ao todo, foram cumpridos em Mato Grosso do Sul e Minas Gerais 31 mandados de busca e apreensão, 4 de prisão preventiva, 1 de monitoramento eletrônico, 2 de afastamentos de função pública, 6 de suspensões de porte de arma e bloqueio de bens de 12 pessoas físicas e jurídicas que somam R$ 40 milhões. O nome da operação, Iscariotes, remete à traição de agentes públicos para favorecer a atuação da organização criminosa investigada. Iscariotes é sobrenome do apóstolo Judas, que traiu Jesus Cristo.
Em nota à imprensa, a Polícia Militar de Mato Grosso do Sul disse que está colaborando e acompanhando, por meio da Corregedoria-Geral, os desdobramentos das investigações envolvendo o militar. “A Corregedoria-Geral da PMMS participou das ações operacionais de busca e apreensão, e já instaurou os procedimentos administrativos disciplinares para apuração completa dos fatos e da conduta de um policial da reserva remunerada, único dos investigados com vínculo com a instituição”, cita a nota.
A Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de Mato Grosso do Sul) também se manifestou sobre a operação. Na nota, a pasta disse que foram abertos Processos Administrativos Disciplinares para a apuração individual de eventuais responsabilidades dos servidores públicos envolvidos no caso. “A Sejusp ressalta que não compactua com quaisquer desvios de conduta por parte de seus servidores, adotando postura de rigor e transparência na apuração dos fatos”, cita.
O caso
As investigações são conduzidas pela Delegacia de Repressão a Crimes Fazendários (Delegfaz). O grupo era especializado na importação ilegal de eletrônicos de alto valor agregado. Após o ingresso irregular no Brasil, os produtos eram distribuídos principalmente em Campo Grande e também em cidades de Minas Gerais, muitas vezes escondidos em meio a cargas regulares para evitar fiscalização.
Os investigadores identificaram ainda o uso de veículos adaptados com compartimentos ocultos para o transporte das mercadorias. O dinheiro obtido com as vendas ilegais era posteriormente ocultado por meio de estratégias financeiras que caracterizam lavagem de capitais.
Outro ponto central da investigação é a participação de agentes de segurança pública, incluindo policiais da ativa e aposentados. Conforme apurado, eles teriam acessado sistemas oficiais para repassar informações sigilosas ao grupo e, em alguns casos, atuado diretamente no transporte das cargas ilegais. Durante a apuração, houve flagrantes que confirmaram a participação direta de policiais no esquema.




















