Pesquisa revela piora na saúde mental de meninas adolescentes no Brasil

13
(Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)

Levantamento do IBGE mostra maior tristeza, pressão estética e exposição à violência entre estudantes de 13 a 17 anos

Ser adolescente no Brasil não tem sido uma experiência igual para todos. Enquanto escolas seguem cheias e rotinas parecem semelhantes entre colegas, os dados mais recentes mostram que meninas vivem uma realidade marcada por maior sofrimento emocional, insegurança e exposição à violência — um cenário que acende alerta para famílias, educadores e políticas públicas.

A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, divulgada na última quarta-feira (25), revela que adolescentes do sexo feminino apresentam indicadores mais críticos de saúde mental, percepção corporal e vulnerabilidade social em comparação aos meninos. Elas representam cerca de metade da população escolar brasileira, aproximadamente 6,2 milhões de jovens.

Realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em parceria com os Ministérios da Saúde e da Educação, a pesquisa traça um retrato da realidade de mais de 12,3 milhões de estudantes entre 13 e 17 anos, das redes pública e privada.


Saúde mental em alerta

Os números indicam um nível elevado de sofrimento emocional entre meninas. Segundo o levantamento, 41% delas disseram ter se sentido tristes na maior parte do tempo ou sempre nos 30 dias anteriores à pesquisa, índice quase 2,5 vezes maior que o registrado entre meninos (16,7%).

Outros sentimentos negativos também aparecem com frequência:

  • 43,4% relataram vontade de se machucar de propósito nos últimos 12 meses (entre meninos, 20,5%);
  • 33% afirmaram sentir que ninguém se preocupa com elas;
  • 25% disseram acreditar que a vida não vale a pena ser vivida (12% entre meninos);
  • 61% relataram preocupação excessiva com o cotidiano;
  • 58,1% disseram sentir irritação ou mau humor frequente.

De acordo com Gabriela Mora, especialista do UNICEF no Brasil, fatores sociais e culturais ajudam a explicar o cenário, incluindo violência de gênero, assédio online, pobreza menstrual e padrões estéticos considerados inalcançáveis.

Ela destaca que meninos também enfrentam impactos emocionais, mas muitas vezes são socializados para reprimir sentimentos, o que dificulta a expressão do sofrimento psicológico.


Escola como espaço de proteção

A pesquisa reforça que mudanças de comportamento, isolamento e sinais de sofrimento emocional precisam ser observados com atenção por famílias e educadores.

Segundo especialistas, o acolhimento sem julgamento e a criação de espaços seguros de escuta são fundamentais para evitar o agravamento dos quadros emocionais.

Para Gabriela Mora, a escola desempenha papel estratégico nesse processo, funcionando não apenas como ambiente de aprendizagem, mas também como espaço de proteção e identificação precoce de situações de risco.


Pressão estética e insatisfação corporal

A relação com a própria imagem também revela desigualdades. Entre as meninas, 36,1% se declaram insatisfeitas ou muito insatisfeitas com o corpo, o dobro do percentual entre meninos (18,2%).

Enquanto eles tendem a buscar ganho de peso, 31,7% delas tentam emagrecer, e 21% se percebem como “gordas ou muito gordas”, muitas vezes com distorção da autoimagem.


Maior exposição à violência

Os dados mostram que adolescentes do sexo feminino são as principais vítimas de diferentes formas de violência:

  • 30,1% relataram episódios frequentes de bullying;
  • 15,2% sofreram agressões virtuais (cyberbullying);
  • 26% disseram ter sido vítimas de assédio sexual;
  • 11,7% afirmaram ter sido forçadas a manter relações sexuais.

Segundo o IBGE, a violência sexual atinge mais de 1 milhão de adolescentes no país.


Pobreza menstrual afeta frequência escolar

Pela primeira vez, a PeNSE trouxe dados sobre dignidade menstrual. O levantamento aponta que 15% das adolescentes deixaram de ir à escola ao menos um dia no último ano por falta de absorventes.

Apesar da existência de políticas públicas para distribuição gratuita, barreiras logísticas e burocráticas ainda dificultam o acesso, principalmente entre estudantes em situação de vulnerabilidade.

Além da falta de produtos, problemas estruturais — como ausência de banheiros adequados e privacidade — agravam a situação. O tema também segue cercado por tabus culturais, o que dificulta o debate aberto.


Desafios que seguem até a vida adulta

Mesmo apresentando melhores índices de conclusão escolar, meninas ainda enfrentam desafios específicos, como gravidez não planejada, sobrecarga de tarefas domésticas e maior cobrança social relacionada ao cuidado familiar.

Segundo Gabriela Mora, essas responsabilidades refletem desigualdades históricas de gênero e impactam diretamente o desenvolvimento das adolescentes.

A especialista defende que políticas públicas priorizem meninas, garantindo proteção contra violências, acesso a direitos básicos e oportunidades de participação social.

“Não se trata de um drama individual, mas de uma questão social que precisa ser enfrentada para que meninos e meninas vivenciem a adolescência de forma mais equilibrada e saudável”, afirma.