Participantes da conferência internacional plantam 250 mudas de espécies do Cerrado e transformam debate global em ação prática na capital sul-mato-grossense
Um gesto simples — plantar uma árvore — reuniu diplomatas, cientistas, autoridades e moradores de Campo Grande em torno de um objetivo comum neste sábado (28): transformar debates globais sobre meio ambiente em ação concreta. Durante a 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Espécies Migratórias de Animais Silvestres (COP15), participantes do encontro internacional criaram o Bosque da COP15, um novo espaço verde formado por espécies nativas do Cerrado e árvores frutíferas.
A iniciativa integrou a programação oficial da conferência e simbolizou a proposta central do evento, cujo tema é “Conectando a Natureza para Sustentar a Vida”. Ao todo, foram plantadas cerca de 250 mudas, entre elas sapoti, pitanga, angico e manduvi — árvore fundamental para a nidificação da arara-azul.
Segundo a secretária-executiva da Convenção sobre Espécies Migratórias (CMS), Amy Fraenkel, a ação representa a essência da conferência.
“Esse é o mais importante evento da COP, porque a ação importa mais. Pensar globalmente e agir localmente é exatamente o que estamos fazendo aqui”, afirmou.
O plantio ocorreu na região do Carandá Bosque e reuniu delegações internacionais, representantes de movimentos ambientalistas e moradores da cidade, aproximando a população de discussões que normalmente acontecem apenas em nível diplomático.
Arborização urbana e proteção da fauna
De acordo com a bióloga Sílvia Ray Pereira, da Gerência de Arborização da Prefeitura, o local foi escolhido estrategicamente para ampliar áreas verdes urbanas.
O Bosque da COP15 integra um projeto municipal de criação de miniflorestas em regiões com pouca cobertura vegetal, principalmente praças e espaços públicos. A proposta busca conciliar arborização urbana, melhoria da saúde da população e criação de habitats para animais silvestres.
Entre as espécies plantadas, o manduvi tem papel especial: a árvore é utilizada pela arara-azul para construção de ninhos. A expectativa é que a ampliação das áreas verdes incentive a aproximação da espécie à área urbana.
Participação popular marca ação ambiental
Além das autoridades, moradores participaram ativamente do plantio. A chefe escoteira Josiane Beraldo destacou o impacto educativo da iniciativa, especialmente entre jovens.
Segundo ela, ações práticas ajudam a transformar o discurso ambiental em experiência concreta. “Quando os jovens participam, deixam de apenas ouvir sobre preservação e passam a fazer parte dela”, afirmou.
O estudante João Davi Sousa, de 9 anos, também participou da atividade e ressaltou a importância das árvores para as aves da cidade. “Elas precisam das árvores para se alimentar e descansar. Todo mundo deve ajudar a preservar”, disse.
A ação contou ainda com representantes internacionais, como a coronel de recursos naturais de Benin, Gnido Assogba, que destacou o papel das iniciativas locais na proteção global dos ecossistemas.
Decisões ambientais avançam na COP15
Antes do plantio, a plenária realizada na manhã de sábado encaminhou mais de 100 propostas para aprovação final da conferência, prevista para domingo (29).
Entre as medidas lideradas ou apoiadas pelo Brasil estão o Plano de Ação para Conservação dos Grandes Bagres Migratórios Amazônicos e iniciativas internacionais voltadas à proteção do tubarão-mangona e do tubarão-peregrino.
Novas espécies também devem passar a integrar as listas de proteção da CMS, incluindo aves migratórias, peixes e mamíferos aquáticos. A ariranha e espécies de petréis serão incluídas simultaneamente em duas categorias de conservação.
Legado ambiental para a cidade
A prefeita Adriane Lopes afirmou que o bosque representa um legado permanente da conferência para Campo Grande, cidade que já registra mais de 400 espécies de aves.
“Estamos deixando um resultado concreto, que contribui para a biodiversidade e para a qualidade de vida da população”, declarou.
O presidente da COP15, João Paulo Capobianco, avaliou o encontro como exemplar, destacando a participação internacional e o ambiente de cooperação entre países.
Representando o governo estadual, o secretário Jaime Verruck ressaltou que a conferência produziu encaminhamentos técnicos relevantes para a proteção das espécies migratórias.
Mais do que um símbolo, o Bosque da COP15 nasce como resultado prático de um encontro global e reforça a ideia defendida ao longo da conferência: a preservação ambiental começa em ações locais capazes de gerar impactos em escala mundial.











