Órgão criado a partir do plano para Gaza pode rivalizar com a ONU
Em um auditório internacional esvaziado de aliados tradicionais, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, lançou oficialmente o chamado Conselho da Paz — uma iniciativa global que nasceu para reconstruir Gaza, mas rapidamente se transformou em um projeto mais amplo e controverso, com ambição de intervir em conflitos ao redor do mundo e até rivalizar com a ONU.
Desde o anúncio do conselho, Trump enfrenta dificuldades para atrair parceiros históricos do Ocidente. Até agora, o apoio mais consistente veio de monarquias do Oriente Médio, de líderes autoritários e de pelo menos um chefe de Estado procurado por supostos crimes de guerra. Países europeus de peso, por outro lado, mantiveram distância.
A proposta foi apresentada a dezenas de governos, mas o alcance do órgão gerou desconfiança entre aliados dos EUA, sobretudo após Trump afirmar que o conselho “poderia” substituir as Nações Unidas. A cerimônia de assinatura ocorreu à margem do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, mas contou com a presença de menos de 20 países — bem abaixo da expectativa inicial do próprio governo americano.
Criado originalmente como um mecanismo para supervisionar a reconstrução da Faixa de Gaza após dois anos de guerra, o Conselho da Paz teve seu escopo ampliado. A minuta da carta constitutiva, enviada aos países convidados, define o órgão como uma organização internacional voltada à promoção da estabilidade e da governança em regiões afetadas ou ameaçadas por conflitos — sem sequer mencionar Gaza.
O texto estabelece ainda que Trump será o presidente do conselho por tempo indeterminado, podendo permanecer no cargo mesmo após o fim de seu segundo mandato. A estrutura inclui um Conselho Executivo fundador, do qual fazem parte o genro do presidente, Jared Kushner, o secretário de Estado Marco Rubio, o enviado especial Steve Witkoff e o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair.
Entre os países que aceitaram o convite estão Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Egito, Catar, Turquia, Hungria, Argentina, Paraguai e Israel, além de nações da Ásia Central e do Sudeste Asiático. O líder de Belarus, Alexander Lukashenko, aliado do presidente russo Vladimir Putin e frequentemente chamado de “último ditador da Europa”, também aderiu.
A Rússia e a China foram convidadas, mas apenas Moscou sinalizou interesse. Trump afirmou que Putin poderia integrar o conselho mediante o pagamento de uma taxa de US$ 1 bilhão por uma vaga permanente — possibilidade que gerou forte reação internacional, já que a Rússia está em guerra ativa contra a Ucrânia. Witkoff e Kushner têm viagem prevista a Moscou para tratar de um possível acordo de paz.
Já entre os que recusaram ou evitaram compromisso estão Reino Unido, França, Noruega e Itália. O governo britânico citou preocupações com a participação russa. A França questionou como o novo órgão funcionaria em relação à ONU. A China confirmou o recebimento do convite, mas reafirmou que vê as Nações Unidas como o centro do sistema internacional.
Especialistas e diplomatas apontam que a principal preocupação está na ampliação do poder do conselho, na liderança indefinida de Trump e no risco de enfraquecimento das instituições multilaterais existentes. A cobrança de US$ 1 bilhão por assentos permanentes também foi alvo de críticas, por abrir margem para influência política e possíveis irregularidades.
Apesar das declarações de Trump, a ONU reagiu. O chefe humanitário da organização, Tom Fletcher, afirmou que o Conselho da Paz não substituirá o órgão criado há oito décadas. “As Nações Unidas não vão a lugar nenhum”, disse.
Enquanto isso, o novo conselho avança cercado de adesões seletivas, recusas estratégicas e um debate global sobre até onde vai a legitimidade de uma iniciativa que promete paz, mas nasce sob forte contestação diplomática.




















