21/04/2015 16h30
55 anos da capital brasileira
Brasília não é a mesma. Mas, depois de 55 anos, ninguém é. O tempo transformou certezas e tradições, arrancou rótulos, reverteu paradigmas e criou novas maneiras de ver a capital, que, no auge da maturidade, continua a receber pessoas de todas as regiões do País. As largas pistas já não suportam a frota de veículos, a população já não almeja com tanto vigor ingressar no funcionalismo público, a festividade tomou conta das ruas, a estrutura já deixa a desejar. Ainda assim, o quadradinho no centro do Brasil encanta quem mora e passa por aqui.
No aniversário do centro político e de poder de um dos maiores países em extensão do mundo, o Jornal de Brasília confere como andam certos tabus e rótulos que o brasiliense vê, desde sempre, empregados à cidade.
Mas que céu!
O rótulo unânime e aparentemente inquebrável ainda é o céu, enaltecido por Lucio Costa. Aqui, de qualquer ponto da cidade é possível ver, ao horizonte, o espetáculo do pôr-do-sol e, apesar dos novos prédios que sobem à vista, isso não mudou.
Para o poeta Nicolas Behr, cuiabano radicado em Brasília há 40 anos, a aniversariante é estigmatizada e, como várias outras, permeada de classificações superficiais. “Brasília é um microcosmo do Brasil”, define. Aqui, diz, há um reflexo do que ocorre em todo o território nacional: seus problemas, fraquezas, dualidades e seus encantos.
O rótulo mais significativo que o poeta diz ter visto cair ao longo dos anos foi o de que Brasília seria uma cidade artificial. “A poesia, as árvores e, principalmente, as pessoas transformaram a cidade em um ambiente orgânico, humanizado, mas Brasília virou uma metrópole para o bem e para o mal”. No entanto, ele considera que a cidade escolhe o cidadão: “Não é para qualquer um. Não existe uma cidade no mundo como Brasília”.
Pistas longas, pouco trânsito
A projeção inicial era de que Brasília abrigasse 500 mil pessoas. As avenidas largas pareciam um exagero. Seria muito difícil lotar aquilo de veículos em plena década de 1960. E era mesmo.
Depois de 55 anos, a realidade é de uma metrópole. São 2,8 milhões de habitantes, quase seis vezes mais que o previsto, e uma média de 0,5 veículos por habitante. Hoje, são raros os dias úteis em que as duas pistas de seis faixas da Esplanada dos Ministérios estão sem congestionamento.
Para especialistas, a culpa é da cultura automobilística mundial vivida já na época da inauguração de Brasília. Carlos Penna, estudioso de trânsito, lembra que houve uma continuidade da política de incentivo à compra de automóveis em vez de transporte público.
“JK foi um grande presidente, mas tinha aquela visão de época de que carros eram a melhor alternativa. Suspendeu o investimento em ferrovias e focou no eixo rodoviário. Parecia realmente que era o caminho, mas já havia grupos dizendo que isso não era a solução. Hoje, vemos que não é”, conta.
Ainda estudante, o jornalista Silvestre Gorgulho desembarcou adolescente em Brasília em 1972, vindo de Minas Gerais. “Quando cheguei, Brasília tinha muita poeira”, resume. Com vários carros pelas ruas, mas sem transporte público, não sabia bem como chegaria à Universidade de Brasília.
“Pegava carona. Todo dia a gente ia para a W3 e fazia o sinal com o dedo. Sempre parava alguém: ‘Vocês vão para onde?’, perguntavam e, mesmo sem ter lá como destino, nos deixavam. Olha que cidade solidária!”, lembra.
Afinal, tem esquina?
Diz o dicionário: esquina é o ponto de encontro entre duas ruas. No centro de Brasília, os cruzamentos dão lugar a contornos, canteiros, paralelos. Então, não há esquinas, correto? Não é tão simples assim. Especialistas defendem que a cidade planejada sempre teve esquinas, para a surpresa do rótulo que a cidade sempre carregou.
“Brasília é cheia de esquinas, é só olhar com atenção”, mostra o urbanista Frederico Flósculo. Não é que os brasilienses nunca perceberam tais cruzamentos. “No projeto original realmente não tem esquinas óbvias na medida em que não tem quarteirões, ruas estreitas e convencionais. Mas, quando você desce do carro e vai ao comércio, começa a perceber que as esquinas estão lá”, provoca.
Ele se refere aos pontos de encontro que, na unicidade da capital do País, se transformariam: “A esquina está num território livre, em que as cidades tradicionais não têm. Aqui, a esquina virou área comunitária, verde, para criança, para diversão. É diferente até nisso”.
De acordo com o também urbanista Antônio Carpintero, há uma esquina única, que se forma um ângulo reto. “Temos uma cidade linear. O único cruzamento é a Rodoviária do Plano Piloto, cortada por pistas de todos os lados”, opina.
Quem convive diariamente nessas supostas esquinas de Brasília entra na controvérsia. Luiz Rangel, 45 anos, é garçom no Líbanus, na 206 Sul, e acha que lá não é uma esquina. “Os balões fazem aqui não ter esquina. Pode até ser a esquina do bloco, mas não da rua, da quadra”, considera o homem, que veio da Paraíba há 25 anos.
Pouco acima, na 506 Sul, a certeza é outra. “Se Brasília tem esquina? Claro que tem! Estamos em uma”, afirma, categoricamente, Mauro Calichman, 55 anos, diretor do Grupo Jorge Ferreira, que diz ter vários estabelecimentos nas esquinas da cidade.
“As paredes fazem um ângulo de 90 graus e têm a aglomeração de pessoas característica de uma esquina”, brinca, se referindo à ponta do bar, chamado de Titanic, e à estátua do garçom Ribamar, que completa 15 anos no Bar Brasília.
“Eu discordo totalmente dessa história de que Brasília não tem esquina. Estamos no fim da rua, formando um ângulo reto. Quanto mais tarde, mais parece uma esquina”, diz Lucas Ferreira, 24 anos, que também é do grupo de bares e restaurantes tradicionais da cidade. “Esquina é mais que o encontro de ruas, avenidas, cruzamentos, é o encontro de ideias”.
Fonte: Da redação do Jornal de Brasília




















