Pesquisador estima em 400 mil as mortes evitáveis por covid no Brasil

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O epidemiologista Pedro Hallal (Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado)

Pedro Hallal falou nesta quinta à CPI da Covid e mostrou cálculos que indicam óbitos desproporcionais ao tamanho da população

O epidemiologista Pedro Hallal, da Ufpel (Universidade Federal de Pelotas), afirmou nesta quinta-feira (24) à CPI da Covid que o país, ao alcançar a marca de 500 mil mortes na pandemia, poderia ter evitado cerca de 400 mil delas.

Ele comparou o número de mortes no mundo – aproximadamente 3,9 milhões – com o tamanho da população brasileira – 2,7% dos habitantes do planeta. E estimou dessa forma o número de óbitos esperado para o país caso a proporção fosse mantida.

 A metodologia foi contestada por senadores governistas. O líder do governo no Senado, Fernando Bezerra (MDB-PE), questionou por exemplo os dados baixos de covid-19 no continente africano. Hallal afirmou que a população é mais dispersa em áreas rurais, o que ajudaria a explicar o baixo número de infectados em relação a outras regiões do mundo.

Hallal coordenou inicialmente o programa financiado pelo Ministério da Saúde que tinha como meta monitorar o avanço do novo coronavírus no Brasil, chamado Epicovid-19. O projeto foi a campo entre maio e junho do ano passado, e acompanhou moradores de 133 cidades. No entanto, o pesquisador conta que foi censurado pelo ministério em uma apresentação que mostrava que o número de indígenas infectados em junho de 2020 era 5 vezes maior do que a quantidade de infectados na população branca. Após isso, afirma, o programa foi descontinuado.

Fora da ação governamental, Hallal se notabilizou com entrevistas e análises nas redes sociais sobre o avanço da pandemia no Brasil. Em janeiro de 2021, ele publicou uma carta na renomada revista “The Lancet”  à comunidade científica internacional denunciando os números da pandemia acima do esperado para o país. Ele aponta que as mortes são consequência das estratégias erradas adotadas. https://imasdk.googleapis.com/js/core/bridge3.468.0_en.html#goog_1561941944

Ele cita como exemplo escolhas contrárias ao consenso científico, como o desestímulo ao isolamento social e a aposta na hidroxicloroquina. “Selecionar os poucos estudos que mostram algo diferente do consenso científico, não é fazer ciência, isso é fazer charlatanismo ou fazer ciência de whatsapp”, disse.

Outra estratégia criticada foi a aposta na imunidade de rebanho via contaminação da população, citando que países como a Suécia também tentaram esse caminho, mas logo o abandonaram. “Depois de um certo tempo se torna uma estratégia repugnante, com toda evidência científica apontando que a imunidade de rebanho por infecção natural não é atingível”, disse.

O especialista levou também à CPI cálculos indicando que a demora para a aquisição de vacinas foi responsável por até 145 mil mortes. E criticou pessoalmente o presidente Jair Bolsonaro pela condução da estratégia de combate à pandemia. 

“Um pedaço dessas mortes é responsabilidade direta do presidente da República. Quem disse que a vacina transforma em jacaré foi o presidente, não o governo. Quem disse que não ia comprar vacina da China foi o presidente, não o governo”, completou.

Fonte: R7