Dona de um espírito livre, o sonho de Eline de Faro Valenca era fazer parte do Poder Judiciário no cargo de oficial de justiça. Mas sua história no TJMS começou dentro do Fórum de Cassilândia, onde trabalhou por 13 anos. Seu primeiro marido não gostava da ideia dela trabalhando pelas ruas. Então a jovem prestou concurso para escrevente, ingressando no cargo em 1989.
O trabalho era bom, mas a vontade de ser oficial de justiça nunca foi esquecida. E a oportunidade de iniciar essa mudança começou quando seu marido foi transferido para Goiás e ela decidiu ficar em Cassilândia com os dois filhos. A separação física culminou com o divórcio, mas logo veio a chegada de um novo companheiro, um engenheiro florestal do Imasul que, em 2002, foi transferido para a Capital.
Dessa vez Eline estava motivada com a mudança de cidade e o atual marido a apoiava no sonho profissional. Foram ainda mais dois anos de trabalho interno no Fórum de Campo Grande, lotada no cartório da Vara da Infância com o juiz Danilo Burin, até ser nomeada para o cargo de oficial de justiça.
Aprovada em 2º lugar para o cargo, ficou atrás apenas da atual juíza Helena Alice Machado Coelho, que acabou desistindo da vaga, pois já estava obtendo êxito nos concursos para a magistratura.
E o começo do tão esperado trabalho nas ruas não foi fácil. Como oficial de justiça dos juizados e uma demanda gigantesca de mandados a cumprir, Eline começava às seis horas da manhã e seguia até não enxergar mais. Precisou instalar rapidamente um kit gás em seu carro, pois percorria em média 200 quilômetros por dia. Só não trabalhava mesmo em dia santo, pois nessas datas não costumava ser bem recebida.
As noites, já em casa, avançava até as 2 horas da madrugada envolta na produção das certidões que precisava entregar em cartório no dia seguinte. E assim, no final daquele primeiro ano como oficial de justiça, Eline estava “estafada” e, o algo a mais que tanto buscava, não a deixou feliz.
Foi então que em 2005 uma transferência de seu marido para Coxim a levou junto para a comarca e pôde enfim deixar para trás todo o tempo em que se sentia ‘presa’ nos cartórios ou atolada de mandados na Capital, conquistando em sua última década como servidora do Judiciário a merecida qualidade de vida.
No ano em que se aposentou, 2015, Eline começava uma nova fase em sua trajetória. Por indicação do irmão, conheceu um grupo de aventureiros peregrinos e, com o dinheiro de suas economias, embarcou no mês de março para uma caminhada de 100 quilômetros no Japão.
Foram 30 dias de viagem, 15 deles concluindo o percurso a pé, dormindo algumas noites em hotéis e a grande maioria em hostels ou em casas de famílias japonesas. O restante do tempo foi dedicado a um turismo mais ‘convencional’, conhecendo cidades como a movimentada Tóquio e as históricas Hiroshima e Nagasaki. Aliás, estava no meio da viagem quando sua aposentadoria foi publicada no Diário da Justiça.
Foi para a ‘inativa’ em plena atividade, conta Eline. Ela nadava, pedalava, e não levou muito tempo para organizar uma nova peregrinação. Com um contato que fez em sua primeira aventura, partiu com outro grupo em setembro de 2015 para encarar outros 100 km na Itália. O percurso é chamado de via Francígena e termina no Vaticano, assistindo a uma missa com o Papa.
A rotina das peregrinações, explica Eline, é deixar o hotel ou a casa onde estão hospedados por volta das 7 horas da manhã e caminhar até umas 3, 4 horas da tarde. Mas ela não se considera uma peregrina raiz, pois como nunca foi de carregar peso na vida, adere ao serviço de transfer, despachando a bagagem logo que desce para o café da manhã e, quando a pessoa chega ao local do pernoite naquele dia, sua mochila já está lá esperando.
Sua mais longa aventura até agora foi realizada em setembro de 2017, quando se desafiou a percorrer 750 km do caminho de Santiago de Compostela, partindo de San Jean (França) até Santiago (Espanha). Ela pensou em desistir nos primeiros dias. Chegou a cogitar que não seria capaz de concluir tamanho desafio, mas o corpo foi se acostumando e, depois que entrou no ritmo, o difícil foi voltar para casa.
No retorno à vida normal, é até estranho acordar logo cedo e não ter um compromisso a cumprir. Quando está peregrinando há sempre um propósito diário a ser vencido. Então, seus dias hoje em Coxim são preenchidos com muitas práticas desportivas e aulas de idioma.
De suas três aventuras, o que encontrou de mágico foram as pessoas que conheceu no meio do caminho. O que a motiva a pensar num retorno ao Caminho de Santiago, dessa vez a pé, para ter mais tempo de ouvir novas histórias.
E assim, dos 15 anos em ‘regime fechado’, brinca Eline, ela evoluiu para 10 anos no ‘aberto’, o que já foi o céu para ela. Hoje, embora diga que continua a mesma pessoa de sempre, ou seja, brava, ela aproveita a sua total liberdade de aposentada servindo agora de inspiração.
Texto: Ascom TJ-MS











