O Poder Judiciário de Mato Grosso do Sul foi o primeiro e único emprego de Paulo Sérgio Mendes Bignardi, que se aposentou em 2015 com 40 anos e 7 meses de atuação e muitas histórias para contar. Entrou ainda menino, no cartório do 2º ofício em 1974 e, aos 18 anos, por conta da criação do Estado, foi contratado como escrevente judicial da equipe do recém-criado Tribunal de Justiça.
Ficou lotado no mesmo local onde funcionava o 2º Ofício, no prédio da Rua 26 de agosto. Foi lá que começou seus longos anos de atuação na 1ª Vara Criminal, onde realizava os júris populares. E sua chegada foi a contragosto, na época em que houve a divisão do Fórum Cível e Fórum Criminal. Como era o caçula da então 2ª Vara Cível, sobrou para ele, numa permuta de servidores, ser o colega destinado a ocupar o lugar na criminal.
Quando foi criada a Lei de Execução Penal, mais uma vez, por ser o mais novo no cartório, Paulo Sérgio foi encaminhado para uma salinha, onde juntamente com duas servidoras cedidas, formaram a primeira equipe que iniciou a execução penal em Campo Grande.
Mas o interesse em participar das sessões do júri o levou, quando teve a oportunidade, a ser destinado ao Plenário de Julgamentos e, para ele, “foi a melhor e a pior coisa. Porque depois que você aprende a fazer júri, os juízes não me deixavam sair. Não existia assessor. Eu era o escrivão do julgamento, datilografava todo o interrogatório, depoimentos, a ata da sessão, a sentença, a votação. Tudo na hora e na máquina de escrever”, recorda.
E com o passar do tempo, conquistou a promoção para escrivão substituto e escrivão. Mesmo assim sempre atuando nas sessões de julgamento. Naquele tempo, os júris populares iniciavam no período vespertino e não tinham hora para acabar. O Juiz que mais esteve ao seu lado foi Nildo de Carvalho, até o Magistrado ser promovido a Desembargador. Carvalho chegou a fazer o convite para que Paulo o acompanhasse no Tribunal de Justiça, mas o servidor preferiu ficar no Fórum.
Entre suas diversas histórias ao lado do ainda Juiz Nildo de Carvalho, Paulo recorda que aos 26 anos adoeceu. Descobriu um princípio de diabetes muito provável influenciado pela má alimentação consumida nos dias de julgamento. Os júris eram realizados de segunda a sexta-feira, concentrados em quatro meses ao longo do ano (março, junho, setembro e dezembro) e, nesse período, era júri todo o dia e a base das refeições era salgadinho.
Mas é claro que não era só dos salgados de lanche durante as sessões que ele se alimentava. Sobrava tempo também para lanches noturnos: “na Afonso Pena tinha duas hamburguerias muito famosas. Uma se chamava Aquárius e a outra Topo Gigio. Eu levei Nildo de Carvalho lá uma vez, numa segunda-feira, após o júri. Era por volta das 11 horas da noite. E nós saímos do Fórum numa fome danada porque naquela época a verba era curta. Para você fazer júri estendido era só salgadinho e refrigerante. Não tinha negócio de jantar. E só tinha almoço quando o júri durava dois ou três dias”.
Embora a comida não fosse tão requintada, por sua vez, as vestimentas eram bastante formais, como uso obrigatório de toga por todos os presentes no júri, inclusive os jurados. Já o Juiz precisava usar uma cartola alta na hora de dar início à sessão de julgamento, como também no momento da leitura da sentença. As formalidades incluíam se levantar sempre que um Juiz adentrasse em qualquer ambiente do Fórum.
Histórias para contar é o que não faltam no repertório de Paulo Bignardi. O júri mais demorado de sua trajetória tratava de um caso desaforado conhecido como “Chacina de Maracaju”, com quatro a cinco réus, e cada um com meia dúzia de testemunhas. Esse júri iniciou numa quinta-feira, às 9 horas da manhã, e foi terminar no sábado, 1 hora da tarde. E ´um detalhe´, conta Paulo: não se podia sair do Fórum, nem para dormir, nem para tomar banho.
Era mês de setembro, aquele calor típico de primavera em Campo Grande e uma refrigeração local não muito eficiente. Com os odores e suores proliferando por toda a parte, Paulo resolveu tomar banho gelado, de canequinha, num tanque atrás do Plenário, fazendo inveja para os demais colegas.
Depois do júri ele passou por muitos locais, mas foi nas sessões de julgamento, no contato com diversos advogados criminalistas também, que aprendeu a lidar com o público. “E quando depois fui escrivão de Vara Cível, eu orientava para não discutir no balcão porque ninguém vem ao Fórum passear. Se a pessoa chega aqui é porque tem problema e não é pouco problema. E se a tratamos mal ou causamos outro problema para pessoa, aí não dá!”.
Quando foram criados os Juizados Especiais, ele ainda acumulou muitas aventuras na comarca de Terenos. Na sua trajetória, ele soma um sequestro relâmpago no presídio, um resgate de correntinha num prostíbulo, entre tantas outras peripécias judiciais como uma audiência de conciliação de desocupação de uma fazenda, onde ele e o Juiz foram sitiados por trabalhadores rurais sem terra.
De suas tantas boas lembranças, Bignardi lembra que recebeu um cassetete de presente do falecido Desembargador Romero Osme Dias para controlar dois senhores brigões em um caso de disputa por uma arma nos juizados em Terenos. Cassetete que, aliás, nunca precisou ser usado, mas está até hoje guardado como relíquia no Fórum da Comarca.
“As histórias ruins parece que eu apaguei da memória”, finaliza Paulo. E assim foram seus 40 anos no Judiciário, resolvendo conflitos de forma a pacificar os ânimos, trabalhando sempre em varas complicadas, o que aliás era uma predileção sua. Assim o TJMS foi seu primeiro e único emprego. Encerrou sua carreira ajudando na informatização das Comarcas do interior, trabalhando pelo Deppi, viajando por cerca de 23 Comarcas numa força-tarefa em seus dois últimos anos na ativa.
Fonte – Texto: Secretaria de Comunicação TJ-MS





















