Falta de testes, ingredientes proibidos e rótulos enganosos elevam risco à saúde; consumo cresce 300% em uma década
Dois em cada três suplementos avaliados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) apresentam algum tipo de irregularidade. É o que revela o levantamento mais recente do órgão, que encontrou falhas em ingredientes, doses, validade e ausência de testes obrigatórios de pureza e estabilidade — essenciais para garantir a segurança do consumo.
Até julho de 2025, 65% dos suplementos analisados foram reprovados, expondo fragilidades no controle sanitário de um mercado que cresce rapidamente e movimenta bilhões de reais por ano, impulsionado por promessas de bem-estar, emagrecimento e ganho de performance.
Apesar do cenário, a Anvisa prorrogou até 2026 o prazo para que as empresas se adequem às novas regras de qualidade e segurança, previstas inicialmente para entrar em vigor ainda este ano.
Em audiência pública na Câmara dos Deputados, em setembro, a gerente de regularização de alimentos da Anvisa, Patrícia Ferrari Andreotti, alertou para a gravidade da situação. “Encontramos falhas em dois terços dos produtos avaliados. Isso mostra que o setor ainda não está em conformidade com o padrão de segurança exigido”, afirmou.
Crescimento acelerado, pouca fiscalização
O consumo de suplementos alimentares aumentou quase 300% na última década, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos para Fins Especiais e Congêneres (ABIAD). Mas o crescimento veio acompanhado de baixa padronização e controle sanitário.
Entre 2020 e 2025, 63% das investigações abertas pela Anvisa na área de alimentos foram relacionadas a suplementos — o maior índice entre todos os grupos regulados.
As irregularidades vão desde ausência de estudos de estabilidade — que garantem que o produto mantém suas propriedades até o fim da validade — até ingredientes proibidos e rótulos com alegações terapêuticas falsas.
Casos recentes resultaram na interdição de marcas como Insuzin e Prostnar, que continham substâncias não declaradas e eram comercializadas como suplementos naturais.
“O suplemento é tratado como alimento, mas muitas vezes age como medicamento, e o consumidor fica preso nessa zona cinzenta”, explica Juliana Pereira, presidente do Instituto IPS Consumo.
Produtos sem controle elevam risco de intoxicação
O uso indiscriminado e sem orientação dos suplementos preocupa especialistas. A endocrinologista Geórgia Castro, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), afirma que vitaminas manipuladas, proteínas e termogênicos podem causar sobrecarga em órgãos e efeitos adversos graves.
“A ideia de que suplemento é natural e inofensivo é um mito perigoso. O excesso de vitaminas lipossolúveis pode causar toxicidade. Já substâncias estimulantes não declaradas podem provocar arritmias e ansiedade”, alerta.
Em casos de consumo exagerado, os riscos incluem intoxicação hepática, aumento da pressão arterial, arritmias e falência renal. Muitos produtos vendidos como naturais ou manipulados também podem conter substâncias farmacológicas não reveladas.
A nutricionista esportiva Juliana Crivellaro reforça que a suplementação aleatória não oferece ganho real de performance. “Virou moda — e o rótulo bonito fala mais alto que a ciência.”
A comunicadora Priscila (nome fictício)* relatou ao g1 ter comprado um suplemento vendido como natural e que prometia emagrecimento rápido. Após ingerir apenas uma cápsula, apresentou sudorese, taquicardia, tontura e dilatação das pupilas. “Achei que fosse morrer”, disse.
Como identificar um suplemento regularizado
A médica nutróloga Danielli Orletti orienta consumidores a adotarem cuidados básicos:
- Verificar se há número de notificação da Anvisa no rótulo (obrigatório para produtos lançados a partir de 2024);
- Desconfiar de alegações milagrosas;
- Checar o CNPJ e o fabricante;
- Consultar o produto no site da Anvisa;
- Comprar apenas em lojas com nota fiscal.
O que diz a Anvisa
A Anvisa afirma que a prorrogação do prazo para adequação até setembro de 2026 não suspende o monitoramento. Segundo o órgão, novos suplementos lançados desde 2024 já devem atender às normas de composição, rotulagem e estabilidade.
A agência reforça que consumidores devem desconfiar de produtos que prometem cura, emagrecimento rápido ou ganho de massa em poucos dias.
Indústria pede isonomia; setor farmacêutico critica demora
A ABIAD, que representa parte dos fabricantes, afirma que suas empresas associadas já cumprem as normas. “A estabilidade das regras é essencial, mas é preciso fiscalizar quem não cumpre”, informa.
O setor farmacêutico, porém, critica o atraso. Para Adriana Diaféria, vice-presidente do Grupo FarmaBrasil, o quadro atual gera “concorrência desleal”.
“Enquanto as normas não forem aplicadas, o consumidor continuará exposto a produtos sem garantia de qualidade”, afirma.
Risco maior na internet
A Anvisa e o IPS Consumo alertam para o aumento de suplementos falsificados vendidos online, com embalagens idênticas às originais. Esses produtos são mais difíceis de rastrear e representam o maior risco à saúde, segundo especialistas.
*com informações G1





















