Medicamentos prescritos não costumam dar positivo, mas substâncias com efeito anfetamínico entram na lista monitorada
Antes mesmo de aprender a ligar o carro ou equilibrar a moto, quem vai tirar a primeira Carteira Nacional de Habilitação (CNH) passou a enfrentar uma nova etapa obrigatória: o exame toxicológico. A mudança, aprovada no fim de 2025, ampliou a exigência para as categorias A e B e trouxe uma dúvida recorrente entre candidatos — o uso de remédios para emagrecer pode reprovar no teste?
Segundo especialistas e critérios adotados por laboratórios credenciados, medicamentos para emagrecimento prescritos por médicos e utilizados corretamente, em regra, não levam à reprovação. O exame toxicológico é direcionado à identificação de drogas ilícitas e de substâncias específicas capazes de causar dependência ou alterar a capacidade psicomotora por longos períodos.
Como funciona o exame toxicológico
O teste é conhecido como exame de larga janela de detecção e utiliza amostras de cabelo, pelos ou unhas. A metodologia permite identificar o consumo de substâncias psicoativas em um período retrospectivo mínimo de 90 dias, que pode chegar a 180 dias.
O processo envolve coleta em postos credenciados, análise laboratorial e emissão de laudo rastreável. Normas técnicas, cadeia de custódia e procedimentos rigorosos garantem a confiabilidade dos resultados.
“Cabelos e unhas funcionam como verdadeiros arquivos biológicos. Eles permitem detectar o uso de drogas semanas ou até meses após o consumo, com mais confiabilidade do que exames de sangue ou urina”, explica a médica Aryadyne Bueno, que atua em laboratórios de exames toxicológicos no Paraná.
Quais substâncias reprovaram mais nos últimos anos
Dados da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) mostram que, entre 2021 e 2025, a cocaína liderou com folga a lista de substâncias mais detectadas em exames toxicológicos no Brasil entre motoristas profissionais das categorias C, D e E.
Veja os números:
- Cocaína: 462.643 detecções (87%)
- Opiáceos: 37.797 (7%)
- Anfetaminas: 21.938 (4%)
- Maconha: 10.525 (2%)
O alto índice da cocaína não significa, necessariamente, maior consumo. Especialistas explicam que a droga gera diversos metabólitos — como benzoilecgonina, norcocaína e cocaetileno — que permanecem depositados no cabelo por longos períodos, facilitando a detecção.
Remédio para emagrecer reprova no exame?
Depende da substância. A atenção deve ser redobrada com fórmulas que contenham anfetaminas ou compostos semelhantes, proibidos no Brasil. Esses, sim, podem ser detectados e resultar em exame positivo.
Entre os medicamentos monitorados está o mazindol, um emagrecedor com efeito estimulante e estrutura química relacionada à anfetamina. Segundo especialistas, se o mazindol for identificado, o resultado tende a ser considerado positivo, mesmo com prescrição médica.
Já medicamentos liberados pela Anvisa, como os à base de semaglutida, liraglutida e outros inibidores de apetite sem ação anfetamínica, não fazem parte da lista de drogas pesquisadas no exame toxicológico da CNH.
O que fazer antes da coleta
Especialistas orientam que o candidato informe ao laboratório todos os medicamentos de uso contínuo no momento da coleta e apresente a receita médica, quando houver. A informação não altera automaticamente o resultado, mas auxilia na análise técnica caso alguma substância gere questionamentos.
Situações comuns: tira-dúvidas
- Usei maconha há dois meses. Vou reprovar?
Pode reprovar. O THC e seus metabólitos podem ser detectados mesmo após uso recreativo, já que ficam incorporados à queratina por meses. - Usei cocaína uma única vez. Aparece?
Sim. O exame identifica a presença da substância e de seus metabólitos, independentemente da quantidade ou da frequência de uso. - O exame detecta álcool?
Não. O álcool não é pesquisado no exame toxicológico exigido para a CNH.
Mitos sobre o exame toxicológico
- ❌ Raspar o cabelo não evita o exame — pelos ou unhas podem ser usados.
- ❌ Urina e sangue não são aceitos.
- ❌ Água, chás ou dietas não “limpam” o organismo.
- ❌ Remédios comuns não dão positivo — a principal exceção é o mazindol.
O que muda com a nova regra
A exigência do exame para a primeira habilitação foi aprovada pelo Projeto de Lei nº 15.153/2025. Antes, a obrigatoriedade valia apenas para motoristas profissionais.
Segundo estimativa da Chromatox, laboratório credenciado pela Senatran, a nova regra deve gerar entre 1,3 milhão e 2 milhões de novos exames em 2026, um crescimento superior a um terço do mercado atual.
“O exame toxicológico é uma ferramenta importante para aumentar a segurança viária e prevenir acidentes, protegendo motoristas, passageiros e pedestres”, afirma Aryadyne Bueno.
Onde fazer e quanto custa
O exame deve ser realizado em laboratórios credenciados pelo Denatran. A legislação também permite que clínicas de aptidão física e mental tenham postos de coleta.
A validade do exame é de 90 dias a partir da coleta. Segundo a Associação Brasileira de Toxicologia (Abtox), o custo varia entre R$ 110 e R$ 250, com prazo médio de até 10 dias úteis para o resultado.




















