Com guerra no radar, BC e Fed iniciam reuniões sob clima de incerteza

28
Expectativa agora é de corte de 0,25 ponto, enquanto juros nos EUA devem ser mantidos (Foto: Internet)

Investidores reduzem aposta em cortes de juros mais agressivos diante da alta do petróleo e pressão inflacionária

A escalada da guerra no Oriente Médio embaralhou projeções e mudou o rumo esperado para os juros em 2026, colocando bancos centrais sob pressão em um cenário de incerteza global. É nesse contexto que o Banco Central do Brasil e o Federal Reserve System iniciam, nesta terça-feira (28), suas reuniões de política monetária.

No Brasil, a expectativa predominante do mercado é de um corte mais moderado da taxa básica de juros. Analistas projetam redução de 0,25 ponto percentual, levando a Selic para 14,5% ao ano. Já nos Estados Unidos, a aposta majoritária é de manutenção das taxas no atual patamar.

Relatório do Itaú BBA aponta que o Comitê de Política Monetária (Copom) volta a se reunir sob um ambiente de “incerteza muito elevada”, influenciado principalmente pelos desdobramentos do conflito no Oriente Médio. Desde o último encontro, o real se valorizou, impulsionado pela alta do petróleo e pela entrada de capital estrangeiro, especialmente no mercado de ações.

Por outro lado, a inflação surpreendeu negativamente. Dados recentes e a elevação das expectativas para o IPCA reduziram o espaço para cortes mais agressivos da Selic, ao impactar diretamente os juros reais.

As decisões tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos serão divulgadas na quarta-feira (29), ao fim das reuniões.

Mercado muda apostas

Antes do agravamento do conflito, o cenário era bem diferente. No fim de fevereiro, a maioria dos investidores apostava em cortes mais intensos da Selic, chegando a 0,5 ponto percentual ou mais. Agora, mais de 86% do mercado projeta uma redução mais branda, enquanto cresce também a fatia que prevê manutenção da taxa.

A mudança de perspectiva reflete uma postura mais cautelosa diante do cenário global. O HSBC, por exemplo, revisou suas projeções e passou a defender uma política monetária mais conservadora, citando os preços elevados do petróleo e as incertezas no transporte marítimo na região do Estreito de Ormuz.

Pressão inflacionária no radar

Relatório da XP Inc. destaca que o fluxo recente de dados aumentou os riscos para a inflação. Entre os fatores estão a alta dos preços de energia, a elevação do núcleo do IPCA e a retomada da atividade econômica no país.

A avaliação é de que o ambiente atual exige cautela adicional, especialmente porque choques inflacionários tendem a ser mais persistentes em economias com baixo nível de ociosidade.

Nesse cenário, o Itaú BBA projeta inflação de 4,4% em 2026, acima das estimativas anteriores. Já o Goldman Sachs elevou sua previsão para a Selic ao fim de 2026, indicando um ciclo de queda mais limitado.

Trajetória dos juros

O boletim Focus, divulgado pelo Banco Central, reforça a expectativa de corte de 0,25 ponto nesta reunião. Apesar disso, o mercado ainda prevê novas reduções ao longo do ano, embora em um ritmo mais lento do que o projetado anteriormente.

A XP, por exemplo, estima que a Selic encerre o ano em 13,5%, com novos cortes condicionados a uma possível redução das tensões no cenário internacional.

Cenário nos Estados Unidos

Nos EUA, a expectativa é de estabilidade nos juros. A ferramenta FedWatch indica consenso total do mercado pela manutenção das taxas, diante de uma inflação ainda pressionada.

O impacto da guerra já aparece nos preços de energia, o que reduz o espaço para cortes no curto prazo. A tendência é que o Jerome Powell adote um discurso cauteloso, sinalizando uma pausa prolongada na flexibilização monetária.

A reunião também marca um momento de transição no comando do Fed, em meio a pressões políticas e incertezas sobre os próximos passos da política econômica americana.

Diante desse cenário global instável, tanto o Banco Central brasileiro quanto o Federal Reserve devem reforçar uma estratégia baseada em cautela e dependência de dados, enquanto acompanham os desdobramentos da crise no Oriente Médio.