Mais de 500 anúncios falsos exploram Desenrola Brasil para aplicar golpes, aponta estudo

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Golpe do Desenrola 2.0 (Imagem gerada por IA)

Pesquisa da UFRJ mostra uso de inteligência artificial e páginas falsas para roubar dados de brasileiros

Quem procura informações sobre o Desenrola Brasil para renegociar dívidas pode acabar caindo em uma armadilha. Criminosos estão aproveitando a popularidade do programa federal para impulsionar anúncios fraudulentos nas redes sociais, criando páginas falsas que imitam canais oficiais e induzem usuários a fornecer dados pessoais.

O alerta é reforçado por um levantamento realizado pelo laboratório de pesquisa NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Entre 1º de abril e 14 de junho, o estudo identificou 278 anúncios fraudulentos relacionados ao Desenrola Brasil. Além disso, outros 264 anúncios promoviam um suposto programa chamado “Libera Brasil”, que não existe e era apresentado de forma enganosa como uma alternativa mais vantajosa para renegociação de dívidas.

Relançado em maio de 2026, o Desenrola Brasil oferece condições especiais para renegociação de débitos, com descontos destinados a pessoas que recebem até cinco salários mínimos. O mesmo público, segundo os pesquisadores, também se tornou alvo preferencial das fraudes virtuais.

De acordo com o levantamento, 72% dos anúncios falsos utilizavam nomes, logotipos ou imagens do governo federal, de instituições financeiras e de veículos de comunicação para transmitir credibilidade. Em outros 39% dos casos, os criminosos recorreram a conteúdos produzidos por inteligência artificial para tornar as publicações ainda mais convincentes. Já 19% dos anúncios direcionavam os usuários para páginas que imitavam os canais oficiais do governo.

A advogada Tatiane Lima afirma que a semelhança entre os sites verdadeiros e os fraudulentos dificulta a identificação do golpe.

“Se a pessoa observar apenas a imagem da página, é muito fácil acreditar que se trata de um endereço oficial, porque até o link é bastante parecido”, explica.

Segundo o NetLab, esses anúncios não aparecem de forma aleatória. Eles são contratados por pessoas físicas ou jurídicas que pagam às plataformas digitais para impulsionar o conteúdo. Em seguida, os sistemas direcionam as propagandas para usuários que pesquisam sobre o programa de renegociação de dívidas.

A diretora do NetLab, Marie Santini, afirma que os anúncios fraudulentos foram encontrados no Facebook, Instagram e WhatsApp, plataformas pertencentes à Meta. Ela destaca, porém, que esse tipo de golpe também é observado em outras grandes empresas de tecnologia.

Para a pesquisadora, as plataformas possuem capacidade técnica e recursos financeiros suficientes para impedir esse tipo de prática, mas ainda falham na prevenção.

Segundo ela, as empresas continuam obtendo receita com anúncios fraudulentos e enfrentam poucos incentivos ou punições para ampliar os mecanismos de controle e segurança digital.

Especialistas alertam que, muitas vezes, até pessoas com experiência em segurança digital encontram dificuldades para diferenciar um anúncio verdadeiro de um falso. Por isso, a principal orientação é evitar clicar em propagandas patrocinadas e acessar o programa exclusivamente por meio dos canais oficiais do governo.

A aposentada Isaura Alago afirma que prefere eliminar imediatamente qualquer mensagem suspeita. “Quando recebo esse tipo de conteúdo, apago na hora e faço a denúncia”, relata.

A preocupação também é compartilhada por outros brasileiros. Para a bióloga Cristiana Melo, a sensação é de vigilância constante diante das tentativas de golpe na internet. Já o engenheiro Lucas Souza defende regras mais rígidas para obrigar as plataformas digitais a identificar e bloquear anúncios fraudulentos antes que eles sejam exibidos aos usuários.

Procurada, a Meta informou que não permite atividades fraudulentas em suas plataformas e que remove anúncios enganosos assim que são identificados, incluindo aqueles relacionados ao Desenrola Brasil. A empresa também orienta os usuários a nunca compartilhar senhas ou informações de acesso, denunciar conteúdos suspeitos pelos canais disponíveis e afirma que coopera com as autoridades competentes, conforme determina a legislação brasileira.