Agro acompanha transformação de Campo Grande e segue como base da economia

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Foto: Divulgação

Antes de se tornar uma Capital com quase um milhão de habitantes, Campo Grande nasceu do campo. A ocupação do território foi impulsionada pelos extenso Cerrado, pelas rotas das boiadas e por uma economia que encontrou na pecuária bovina seu principal motor de desenvolvimento. Ao longo de 127 anos, a cidade deixou de ser apenas um centro produtor e comercializador de gado para se consolidar como um polo que reúne agroindústria, pesquisa, tecnologia, logística e serviços especializados para todo o agronegócio de Mato Grosso do Sul.

Hoje, embora tenha perfil predominantemente urbano, mais de 93% do território do município permanece rural. De acordo com levantamento do Departamento Técnico do Sistema Famasul (Detec), com base nos registros do Sistema de Cadastro Ambiental Rural (SICAR), são 2.823 propriedades distribuídas em 754,2 mil hectares, evidenciando que a história e a economia da Capital continuam profundamente conectadas à produção agropecuária.

No fim do século XIX, a abundância de pastagens naturais favoreceu a instalação das primeiras fazendas e a criação de bovinos. As comitivas cruzavam a região transportando rebanhos para mercados consumidores, movimentando o comércio, hospedarias, armazéns e serviços que dariam origem ao núcleo urbano de Campo Grande.

A grande virada aconteceu em 1914, com a chegada da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. Conforme análise do Detec, com a ferrovia, Campo Grande passou a ter ligação direta com os mercados consumidores do Sudeste, principalmente São Paulo. O transporte de gado tornou-se mais eficiente, novas atividades de processamento se instalaram próximas aos trilhos e a cidade consolidou sua posição como centro de comercialização da produção pecuária regional.

“A ferrovia foi decisiva para consolidar Campo Grande como um importante entreposto comercial da pecuária. Ela transformou a logística da produção, estimulou a instalação de novas atividades econômicas próximas aos trilhos e fortaleceu a cidade como elo entre o campo e os grandes centros consumidores”, afirma Tamiris Azoia, coordenadora do Departamento Técnico do Sistema Famasul.

Além da criação de gado, pequenas lavouras de milho, arroz, feijão, mandioca e hortaliças garantiam o abastecimento da população que se estabelecia na região.

Nas décadas seguintes, a expansão das rodovias substituiu gradualmente o transporte ferroviário, mas a vocação produtiva permaneceu viva. Em 2025, aproximadamente 98% das exportações de Campo Grande tiveram origem no agronegócio, somando US$ 758,1 milhões. Desse total, as carnes responderam por 82,5% das vendas internacionais do município.

Uma matriz produtiva cada vez mais diversificada

Embora a pecuária continue sendo uma das principais atividades econômicas do município, o perfil produtivo de Campo Grande mudou significativamente nas últimas décadas.

Atualmente as pastagens ocupam cerca de 396,2 mil hectares, o equivalente a 49% da área municipal. Em 2010, essa participação era de 72%, com 583,1 mil hectares destinados à atividade.

A redução da área, no entanto, não representa perda de importância da pecuária. O setor passou por um intenso processo de modernização, com investimentos em genética, nutrição, manejo de pastagens e tecnologias que permitiram aumentar a produtividade mesmo em áreas menores.

Ao mesmo tempo, outras atividades ganharam espaço. O levantamento do Detec aponta que a área cultivada com soja saltou de 15,4 mil hectares em 2010 para 142,5 mil hectares em 2025. O cultivo de milho, milheto e sorgo na segunda safra ocupa atualmente quase 90 mil hectares. Já o eucalipto avançou de 9,1 mil para 66,9 mil hectares no mesmo período.

Para o presidente do Sistema Famasul, Marcelo Bertoni, essa evolução mostra que a relação de Campo Grande com o campo ganhou novas dimensões. “Nossa capital evoluiu de uma economia fortemente concentrada na pecuária para um sistema produtivo diversificado. Hoje, convivem no município cadeias importantes ligadas aos grãos, à produção florestal, à agroindústria e aos serviços especializados, ampliando a geração de renda e oportunidades”, afirma.

Novas fronteiras

A transformação não aconteceu apenas na variedade de produtos. Mecanização, gestão de dados, monitoramento climático, automação, rastreabilidade e agricultura de precisão passaram a integrar o desenvolvimento da produção rural.

A própria estrutura da Capital favorece esse processo. Campo Grande concentra universidades, instituições de pesquisa, entidades do Sistema S, empresas e startups capazes de aproximar inovação e produtor rural.

Para os próximos anos, a perspectiva é avançar não apenas na produtividade das cadeias já consolidadas, como bovinocultura, soja e milho, mas também na diversificação. Hortaliças, frutas, mandioca, leite e derivados, ovos, aves, ovinos, mel e produtos artesanais encontram na própria população da Capital um mercado consumidor em potencial.

Outras atividades, como citricultura, piscicultura, apicultura, produção orgânica, bioinsumos, pequenas agroindústrias e turismo rural, aparecem entre as possibilidades de novos negócios apontadas pelo município.

A proximidade entre a área rural e a área urbana abre espaço para aproximar cada vez mais quem produz de quem consome. “Temos um grande mercado consumidor praticamente ao lado das propriedades rurais. Isso cria oportunidades para encurtar caminhos, fortalecer a agricultura familiar, ampliar a agroindustrialização e fazer com que uma parcela maior do valor gerado pela produção permaneça em Campo Grande”, afirma o secretário municipal de Meio Ambiente, Gestão Urbana e Desenvolvimento Econômico, Turístico e Sustentável, Ademar Silva Junior.

A Prefeitura também aponta como prioridades ampliar a assistência técnica, fortalecer agroindústrias, incentivar associativismo e cooperativismo, melhorar a infraestrutura rural e criar novas possibilidades de comercialização.

A posição geográfica da Capital e a perspectiva de integração pela Rota Bioceânica também ampliam as possibilidades de atração de centros de distribuição, operadores logísticos, agroindústrias e empresas de tecnologia.

Mais de um século após sua fundação, Campo Grande continua carregando o agro em sua identidade. Se no passado a pecuária abriu caminhos para o desenvolvimento da cidade, hoje é a diversidade das cadeias produtivas que ajuda a impulsionar uma Capital que cresce sem perder suas raízes no campo.