
Aeronaves de Almir Sater, ex-prefeito e pecuarista estavam em hangar de aeródromo fechado após operação contra o tráfico de drogas
Quase cinco anos depois de desaparecerem durante uma ação criminosa em Mato Grosso do Sul, os três aviões roubados do Aeroporto Municipal de Aquidauana foram localizados na Bolívia. As aeronaves foram encontradas nesta quarta-feira (26) no hangar 13 do Aeródromo Mondaca, conhecido como La Cruceña, em Cotoca, no departamento de Santa Cruz. O local está sob controle das autoridades bolivianas desde uma operação contra o narcotráfico realizada em 2022.
Entre os aviões encontrados está o Bonanza V35B, de matrícula PT-ING, pertencente ao pecuarista Zelito Alves Ribeiro e a Joel Jacques. Também foram identificados dois Cessna 182 Skylane: o PT-KDI, ligado ao ex-prefeito de Aquidauana José Henrique Trindade, e o PT-DST, que pertence ao cantor e compositor Almir Sater.
A localização das aeronaves representa o principal avanço desde a madrugada de 6 de setembro de 2021, quando cerca de 18 homens armados invadiram o aeroporto, renderam o vigia e levaram os três aviões. Na época, testemunhas relataram que parte do grupo falava com sotaque estrangeiro, e a investigação passou a considerar desde os primeiros momentos a possibilidade de que as aeronaves tivessem sido levadas para a Bolívia.
Segundo as investigações, os criminosos entraram no aeroporto pela região conhecida como Vila 40, renderam o funcionário e o obrigaram a abastecer as aeronaves. Os aviões decolaram em sequência e desapareceram. A polícia suspeitava que o grupo tivesse ligação com o tráfico internacional de drogas, já que aeronaves de pequeno porte são utilizadas em rotas clandestinas na região de fronteira.
A hipótese de que os aviões haviam sido levados para território boliviano ganhou força ainda no dia do roubo. A Força Aérea Brasileira (FAB) foi acionada para verificar a possibilidade de que as aeronaves tivessem cruzado a fronteira, enquanto equipes do Departamento de Repressão à Corrupção e ao Crime Organizado (Dracco) iniciaram as buscas e a perícia em Aquidauana.
Aviões estavam em área ligada a apreensões contra o tráfico
O Aeródromo Mondaca, onde as aeronaves foram localizadas, está interditado para operações aéreas civis e comerciais desde uma grande ação contra o tráfico de drogas realizada em março de 2022. Durante a operação, dezenas de aeronaves foram apreendidas e 38 pessoas foram presas, segundo informações divulgadas à época.
Os três aviões roubados de Aquidauana estavam entre os equipamentos mantidos sob custódia no complexo. A identificação agora abre uma nova etapa do caso, que deverá envolver autoridades brasileiras e bolivianas para definir como as aeronaves chegaram ao local e quais procedimentos serão necessários para devolvê-las aos proprietários.
A expectativa dos donos é que especialistas brasileiros possam ter acesso ao hangar para realizar uma identificação técnica dos aviões e verificar as condições das aeronaves. Também deverá ser esclarecido quando e em quais circunstâncias os equipamentos foram levados até o aeródromo boliviano.
Investigação já buscava aeronaves na Bolívia
A possibilidade de os aviões roubados em Aquidauana estarem entre as aeronaves apreendidas na Bolívia já era investigada pelas autoridades de Mato Grosso do Sul. Em 2023, o Dracco aguardava autorização do país vizinho para verificar os equipamentos recolhidos no Aeródromo Mondaca.
Naquele período, investigadores buscavam confirmar se os três aviões brasileiros estavam entre as dezenas de aeronaves apreendidas durante a operação antidrogas. A falta de autorização para a entrada das equipes brasileiras, no entanto, impediu que a identificação fosse feita naquele momento.
A descoberta desta quarta-feira confirma, anos depois, a principal linha investigativa adotada desde o roubo: a de que os aviões haviam sido levados para a Bolívia.
Roubo foi planejado e envolveu criminosos estrangeiros
O ataque ao aeroporto de Aquidauana durou cerca de 30 minutos. Os criminosos estavam fortemente armados, usavam capuzes e luvas e renderam o vigia e os dois filhos dele. As vítimas foram amarradas enquanto os aviões eram preparados para a fuga.
Investigações realizadas após o crime apontaram ainda a participação de bolivianos na ação, inclusive de pessoas que teriam sido responsáveis por pilotar as aeronaves até o destino final. A polícia trabalhava com a suspeita de que os aviões seriam utilizados posteriormente em atividades ligadas ao tráfico de drogas.
O caso também levou os investigadores a apontarem Laudelino Ferreira Vieira, conhecido como Lino e citado como uma das lideranças da organização criminosa, como responsável por chefiar o grupo envolvido no roubo. Em julho de 2026, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou pedido da defesa para que ele deixasse o sistema penitenciário federal e retornasse para Mato Grosso do Sul.
Em outubro de 2023, quatro envolvidos no roubo foram condenados pela Justiça e houve determinação para o pagamento de indenização de R$ 2,5 milhões às vítimas. Até então, porém, os três aviões continuavam desaparecidos.
A localização na Bolívia muda o cenário do caso e coloca as autoridades diante de uma nova etapa: confirmar oficialmente a identidade das aeronaves, apurar como elas foram parar no complexo de custódia e definir os procedimentos para que os aviões possam finalmente retornar ao Brasil.




















