Quem circula por Campo Grande com os olhos voltados para o céu provavelmente já se acostumou com uma cena que, até poucas décadas atrás, poderia parecer incomum em uma capital: duas, três ou até dezenas de araras-canindé cruzando os céus entre prédios, árvores e avenidas. Com suas penas azuis e amarelas e os chamados estridentes, as aves se tornaram parte da paisagem urbana e hoje são uma das marcas mais características da fauna da Capital.
Na manhã dessa quinta-feira (03), uma moradora do bairro Jardim das Cerejeiras, em Campo Grande, flagrou dezenas delas em uma árvore de grande porte na Rua Manorel José Lopes. “Estavam todas pulando, fazendo a maior farra entre os galhos. Estavam em casais, eram mais de dez, porém tinham outras no outro canto, chegando e saindo”, descreveu Vanessa Ramos. “Sempre vejo araras sobrevoando a região, mas essa é a primeira vez que flagro em um bando tão grande. Me chamou a atenção!”, continuou no relato.
A arara-canindé, cujo nome científico é Ara ararauna, pertence à família dos psitacídeos, a mesma dos papagaios, periquitos e maracanãs. É uma ave de grande porte, podendo chegar a aproximadamente 80 a 86 centímetros de comprimento. A plumagem é facilmente reconhecida: o dorso e as asas apresentam tonalidade azul, enquanto o peito e a barriga são predominantemente amarelos. A cabeça combina tons de verde, amarelo e azul, além de uma região facial clara marcada por pequenas linhas de penas escuras.
Uma cidade que virou território das araras
Em Campo Grande, a importância da espécie vai muito além da beleza. A presença constante das araras é também resultado da capacidade que elas demonstraram de se adaptar ao ambiente urbano. A cidade, conhecida pela arborização abundante, oferece árvores, palmeiras e diferentes espécies vegetais que podem servir de alimento e, em determinadas condições, de abrigo para reprodução.
A adaptação das araras ao cotidiano está diretamente relacionada à arborização. Pesquisas realizadas na cidade identificaram dezenas de pontos utilizados pelas aves para alimentação, com registros de espécies vegetais nativas e também introduzidas. Entre os alimentos observados estão frutos de bocaiuva, buriti, manga e sete-copas, mostrando a capacidade da espécie de aproveitar diferentes recursos disponíveis no ambiente urbano.
Essa disponibilidade ajuda a explicar por que as araras podem ser encontradas durante todo o ano na Capital, inclusive em períodos de reprodução. Em vez de utilizar a cidade apenas como local de passagem, muitas delas estabeleceram uma relação permanente com o ambiente urbano.
O cenário é particularmente interessante porque a arara-canindé não é uma espécie exclusivamente florestal. Ela ocupa diferentes ambientes e apresenta comportamento bastante adaptável. Em Campo Grande, essa característica se soma à existência de áreas verdes, quintais arborizados, parques, praças e árvores espalhadas pelas ruas.
É justamente nesses espaços que as araras encontram parte dos recursos necessários para sobreviver.
Os ninhos estão mais perto do que muita gente imagina
Uma das características mais curiosas da presença das araras em Campo Grande é que seus ninhos podem estar literalmente ao lado das pessoas.
De acordo com o Instituto Arara Azul, a espécie utiliza principalmente cavidades em troncos de palmeiras mortas. Na Capital, ninhos já foram identificados em áreas residenciais, imóveis comerciais, calçadas, passeios públicos, avenidas e parques. Mais da metade dos ninhos cadastrados pelo projeto está dentro ou nas proximidades de áreas verdes.
Isso significa que uma árvore aparentemente sem vida pode ter uma função ecológica importante. Para as araras, um tronco morto pode representar um local adequado para colocar os ovos e criar os filhotes.
A reprodução ocorre dentro dessas cavidades, onde normalmente são colocados dois ovos. A incubação dura cerca de 24 a 26 dias, segundo referências de instituições especializadas.
Depois que deixam o ninho, os filhotes ainda permanecem próximos dos pais por um período, aprendendo comportamentos fundamentais para a vida, como encontrar alimentos e se deslocar pelo território.
Símbolo que ganhou o céu da Capital
A relação entre as araras e Campo Grande chegou ao ponto de a espécie ser reconhecida oficialmente como símbolo da cidade. A arara-canindé foi instituída como ave-símbolo de Campo Grande pela Lei Municipal nº 5.561, de 15 de junho de 2015.
A escolha ajuda a traduzir uma característica particular da Capital: a convivência relativamente próxima entre uma grande cidade e animais silvestres.
Em meio ao trânsito, aos prédios e ao crescimento urbano, as araras continuam encontrando espaço para voar, se alimentar, formar casais e criar seus filhotes. É uma demonstração de que a conservação da natureza não acontece somente em parques nacionais, reservas ou grandes áreas de floresta.
Ela também pode acontecer na rua de casa.
O que fazer ao encontrar uma arara?
Apesar de acostumadas ao movimento urbano, as araras continuam sendo animais silvestres. Por isso, a recomendação é observar sem tentar capturar, alimentar ou interferir em seus ninhos.
Filhotes encontrados no chão também não devem ser imediatamente recolhidos. Em determinadas situações, aves jovens podem estar em uma etapa natural de aprendizagem do voo e continuar sendo acompanhadas pelos pais.
Da mesma forma, árvores que possuem cavidades utilizadas para reprodução devem ser preservadas sempre que possível. Em uma cidade onde os ninhos podem estar em quintais, calçadas e áreas públicas, a conservação das árvores ganha importância ainda maior.
O espetáculo proporcionado pelas araras-canindé no céu de Campo Grande é, portanto, mais do que uma atração para quem gosta de fotografar animais. É um indicador de que a fauna encontrou na paisagem urbana condições para sobreviver e se reproduzir.
Quando um casal azul e amarelo passa voando sobre uma avenida, deixando para trás o som característico de suas vocalizações, a cena pode parecer apenas bonita. Mas, por trás daquele voo, existe uma história de adaptação, reprodução e convivência com uma cidade que cresceu ao redor das árvores — e que, de certa forma, aprendeu a dividir o espaço com suas araras.





















