Pesquisa analisou mais de 135 mil adultos e avaliou relação entre atividade física, sedentarismo e mortalidade
Deixar o carro na garagem e caminhar alguns minutos a mais pode parecer uma mudança pequena na rotina, mas um estudo publicado na revista científica The Lancet indica que mesmo acréscimos modestos de atividade física estão associados a menor risco de morte. A pesquisa analisou mais de 135 mil adultos e estimou que acrescentar cinco minutos diários de atividade física moderada a intensa poderia estar associado a uma redução de 10% nas mortes entre a maioria dos participantes.
O estudo reuniu dados de pessoas dos Estados Unidos, Reino Unido, Noruega e Suécia, acompanhadas por cerca de oito anos. Os participantes usaram acelerômetros, dispositivos capazes de registrar objetivamente os movimentos realizados durante o dia. A idade média do grupo analisado foi de 64 anos.
Entre os adultos que já acumulavam, em média, 17 minutos por dia de atividade física moderada a intensa, a inclusão de mais cinco minutos esteve associada a uma redução estimada de 10% no número de mortes. Entre os participantes menos ativos, que faziam cerca de dois minutos diários desse tipo de atividade, o acréscimo esteve associado a uma redução estimada de 6%.
Os pesquisadores, porém, ressaltam que os números representam associações observadas em uma análise de estudos de acompanhamento. Portanto, não é possível afirmar que acrescentar exatamente cinco minutos de exercício provoque, individualmente, uma redução específica no risco de morte.
A pesquisa também avaliou o tempo sentado. Entre a maioria dos adultos, que passava cerca de dez horas por dia em comportamento sedentário, reduzir esse período em 30 minutos esteve associado a uma redução estimada de 7% nas mortes.
Os resultados ajudam a colocar em perspectiva uma prática que pode ser adotada no cotidiano: substituir alguns deslocamentos curtos de carro por caminhada ou bicicleta, quando distância, segurança e infraestrutura permitirem.
Caminhada como parte do deslocamento
Para o coordenador do curso de Educação Física da Estácio, Cláudio Henrique Verão, transformar parte dos trajetos cotidianos em deslocamento ativo pode contribuir para diferentes aspectos da saúde.
“Além da questão do gasto calórico, temos benefícios para a saúde de forma geral. O sistema respiratório passa a trabalhar de maneira mais eficiente, há melhora da frequência cardíaca e da circulação, além de reflexos positivos na pressão arterial”, explica.
A mudança pode ser especialmente importante para quem passa muitas horas sentado. Segundo o professor, pequenas caminhadas distribuídas ao longo do dia ajudam a interromper períodos prolongados de inatividade.
“Caminhadas curtas, independentemente do horário ou do motivo, fazem o corpo quebrar essa inércia, melhoram a circulação sanguínea e contribuem para a prevenção de doenças cardíacas”, afirma.
Caminhar ou pedalar com frequência também pode melhorar o condicionamento físico, especialmente a capacidade aeróbica, além de trabalhar a musculatura das pernas e contribuir para o ganho de resistência.
Não é necessário alterar todos os deslocamentos de uma vez. Ir a pé até um comércio próximo, caminhar parte do caminho para o trabalho, descer alguns pontos antes no transporte coletivo ou utilizar a bicicleta em trajetos possíveis são maneiras de acumular minutos de movimento durante o dia.
Para pessoas sedentárias, a orientação é começar gradualmente. Verão recomenda iniciar com percursos menores e aumentar a distância conforme o corpo se adapta. Hidratação, alimentação e calçados adequados também devem ser considerados, principalmente em caminhadas mais longas.
E o patinete elétrico?
Em Campo Grande, os patinetes elétricos compartilhados passaram a fazer parte da paisagem urbana em 2026. A operação experimental começou em julho, inicialmente com 400 equipamentos disponibilizados pela empresa JET em áreas da região central. A Agetran acompanha o serviço para avaliar demanda, circulação, segurança e integração com a infraestrutura cicloviária.
Do ponto de vista da mobilidade, o patinete pode funcionar como alternativa ao carro em trajetos curtos. Mas a situação é diferente quando o objetivo é aumentar a atividade física.
Segundo Cláudio Henrique Verão, o equipamento exige pouco esforço corporal e, por isso, não proporciona o mesmo estímulo da caminhada ou da bicicleta.
“Na busca de um deslocamento ativo, ele se torna inoperante, pois não há movimento com intensidade considerada relevante para o gasto calórico ou para os benefícios cardíacos ou musculoesqueléticos que a caminhada ou a bicicleta proporcionam”, explica.
Assim, o patinete pode contribuir para mudar a forma de deslocamento, mas não substitui a caminhada ou a bicicleta quando a intenção é aproveitar o trajeto para fazer atividade física.
Novas regras para patinetes e bicicletas compartilhadas
Além de começarem a ganhar espaço como meio de transporte, os equipamentos de micromobilidade também passaram a ter regras específicas de estacionamento em Campo Grande.
A legislação municipal estabelece que patinetes elétricos e bicicletas compartilhadas, inclusive os modelos que funcionam sem estações físicas de retirada e devolução, não podem ser abandonados ou estacionados de maneira a bloquear a circulação de pedestres nas calçadas.
A regra preserva a chamada faixa livre destinada aos pedestres, que deve manter a largura exigida pelas normas de acessibilidade. Portanto, não há uma proibição geral de deixar o equipamento sobre a calçada: o estacionamento pode ocorrer em locais permitidos, desde que não prejudique a passagem ou esteja em área com restrição específica.
A Prefeitura também pode estabelecer áreas de “Proibido Estacionar” para esses equipamentos, especialmente em calçadas e pontos com grande circulação de pessoas.
A responsabilidade pela retirada e organização dos equipamentos deixados de maneira irregular é das empresas operadoras. Em caso de descumprimento, podem ser aplicadas as penalidades previstas na legislação municipal, incluindo multa e apreensão.
A mudança acrescenta o artigo 13-A à Lei nº 2.909, de 28 de julho de 1992, que institui o Código de Polícia Administrativa de Campo Grande.
A legislação entra em vigor a partir da publicação, mas parte da aplicação prática depende de regulamentação do município, incluindo procedimentos de fiscalização e definição de valores de eventuais penalidades.
A preocupação com a organização dos novos modais ocorre em paralelo à regulamentação experimental feita pela Agetran para a circulação de bicicletas e equipamentos de mobilidade individual autopropelidos em ciclovias e ciclofaixas. A norma experimental tem validade inicial de 180 dias e prevê o acompanhamento do uso e da segurança desses equipamentos.
Dia Mundial Sem Carro
O Dia Mundial Sem Carro é celebrado em 22 de setembro e propõe a reflexão sobre o uso dos automóveis e sobre alternativas de deslocamento.
Em Campo Grande, a discussão ganha um componente adicional com a expansão dos equipamentos de micromobilidade. Patinetes e bicicletas podem substituir o carro em determinados percursos, enquanto caminhada e bicicleta também permitem incorporar atividade física ao deslocamento.
Os dados do estudo publicado na The Lancet reforçam que pequenas mudanças na quantidade de movimento diário podem ter relevância quando analisadas em grandes grupos da população. Ao mesmo tempo, os pesquisadores destacam que os resultados não devem ser interpretados como uma prescrição individual de cinco minutos de exercício, mas como estimativas de possíveis impactos populacionais.
Na prática, para quem pode fazer isso com segurança, trocar alguns trajetos motorizados por passos ou pedaladas pode ser uma maneira de reduzir o tempo sentado e aumentar o movimento ao longo do dia.





















