Como surgiu o ‘pilili’, o famoso som da urna eletrônica brasileira; entenda

15
Som criado nos anos 1990 nasceu de uma necessidade técnica e hoje é associado ao momento em que o eleitor confirma a escolha (Foto: Senado)

Engenheiros do TSE testaram diferentes sequências de ‘beeps’ antes de chegar ao sinal usado até hoje para confirmar o voto

Há 30 anos, um pequeno detalhe técnico ajudou a criar um dos sons mais reconhecidos das eleições brasileiras. Na reta final do desenvolvimento da urna eletrônica para as eleições municipais de 1996, os engenheiros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) precisavam encontrar uma maneira simples de avisar ao eleitor que a votação havia sido concluída.

A solução foi uma sequência de sinais sonoros, formada por “beeps”, que passou a tocar depois que o eleitor confirma o voto. Com o tempo, o som ganhou um lugar próprio no imaginário das eleições e ficou conhecido informalmente como “pilili”.

A urna eletrônica foi utilizada pela primeira vez nas eleições de 1996, quando cerca de um terço do eleitorado brasileiro votou pelo sistema eletrônico. Em 2026, o equipamento completa três décadas de utilização no país.

Segundo Giuseppe Janino, ex-secretário de Tecnologia da Informação do TSE e um dos responsáveis pelo desenvolvimento da urna, os equipamentos disponíveis na época tinham recursos sonoros bastante limitados. As placas não contavam com recursos multimídia, e a alternativa disponível era trabalhar com sinais eletrônicos simples.

A equipe técnica testou diferentes combinações até chegar à sequência que seria utilizada para indicar o encerramento da votação.

“Entrou na cultura do eleitor e do mesário, virou uma questão cultural”, resume Janino ao explicar a importância que o som ganhou ao longo dos anos.

O próprio TSE incorporou a referência ao som na identidade das eleições de 2026. Em maio, a Corte apresentou Pilili, uma mascote inspirada na urna eletrônica e batizada a partir da onomatopeia associada ao som emitido pelo equipamento.

Um som que virou símbolo

O “pilili” é ouvido no momento em que o eleitor confirma o voto. A sequência funciona como uma espécie de confirmação sonora de que a operação foi finalizada.

A ideia surgiu em um momento em que a equipe responsável pelo projeto buscava soluções que fossem simples, claras e possíveis de serem executadas pelo hardware disponível nas primeiras versões da urna.

Três décadas depois, o som continua presente no processo eleitoral. O TSE chegou a incorporá-lo ao simulador de votação disponibilizado para as Eleições 2026, permitindo que o eleitor treine o procedimento antes do dia da votação.

Urna também ampliou recursos de acessibilidade

Além de substituir as cédulas de papel e automatizar etapas da votação, a urna eletrônica recebeu recursos destinados a facilitar o voto de diferentes grupos de eleitores.

O equipamento possui teclado com identificação em braile e sistema de áudio para auxiliar pessoas com deficiência visual. Também há recursos de acessibilidade voltados a outros públicos.

Desde as eleições municipais de 2024, a urna utiliza uma nova voz sintetizada, chamada “Letícia”. A voz pertence à cantora Sara Bentes, que nasceu com deficiência visual. A mudança foi feita a partir de uma sugestão da Organização Nacional de Cegos do Brasil (ONCB).

A voz fornece orientações durante a votação, incluindo informações sobre o cargo em disputa e os dados da candidatura selecionada.

Como funciona a urna eletrônica

A urna eletrônica não é conectada à internet, ao Wi-Fi ou ao Bluetooth durante a votação. O equipamento funciona de maneira isolada e utiliza sistemas previamente preparados e submetidos a procedimentos de fiscalização e auditoria.

Antes das eleições, os programas que serão utilizados passam por diferentes etapas de inspeção, testes e verificação. Depois, os sistemas são gravados em mídias e lacrados para utilização no pleito.

Durante a votação, cada eleitor é habilitado pelo mesário e utiliza a urna destinada à sua seção eleitoral. O voto é registrado individualmente e armazenado de maneira que não seja possível relacioná-lo ao eleitor que o digitou.

Ao término da votação, a urna encerra a coleta de votos e imprime o Boletim de Urna (BU), documento que registra a quantidade de votos atribuída a cada candidatura, além dos votos brancos e nulos. Uma via fica disponível na própria seção eleitoral.

Os dados do resultado são gravados em uma mídia e encaminhados aos sistemas da Justiça Eleitoral para a totalização.

30 anos de evolução

Desde 1996, a urna passou por sucessivas mudanças de hardware, software e mecanismos de segurança. Segundo o TSE, foram produzidos mais de 1,4 milhão de equipamentos ao longo de três décadas, em 14 modelos diferentes.

Para as Eleições Gerais de 2026, a Justiça Eleitoral prevê o uso de 563.910 urnas para atender mais de 158,7 milhões de eleitores aptos a votar. Serão utilizados quatro modelos: UE2022, UE2020, UE2015 e UE2013.

O sistema também passou a contar com mecanismos de fiscalização e auditoria que permitem a participação de partidos políticos, instituições e entidades fiscalizadoras em diferentes etapas do processo eleitoral. Segundo o TSE, são cerca de 40 etapas de fiscalização e auditoria, incluindo abertura dos códigos-fonte, testes públicos de segurança e lacração dos sistemas.

Assim, aquele pequeno conjunto de “beeps” criado para resolver uma necessidade técnica nos anos 1990 acabou ganhando uma função muito maior: tornou-se um dos sons imediatamente associados ao momento em que milhões de brasileiros concluem o voto.