Mercado de drogas poderá entrar no cálculo do PIB do Brasil a partir de 2028

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Agentes do IBGE (Foto: Reprodução)

IBGE estima movimentação econômica de atividades ilegais para evitar distorções nas estatísticas de produção, consumo e renda

O mercado de drogas ilícitas deverá passar a fazer parte das estatísticas utilizadas pelo IBGE para calcular o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil. A mudança está em estudo para a próxima revisão do Sistema de Contas Nacionais (SCN), e os primeiros resultados da nova metodologia estão previstos para 2028.

A inclusão não significa que o instituto vá considerar o tráfico de drogas uma atividade legal. O objetivo é contabilizar uma movimentação econômica que existe na prática, mas que atualmente não aparece integralmente nas estatísticas oficiais.

O IBGE informa que o SCN segue recomendações internacionais para medir a produção, a renda, o consumo e outros fluxos da economia brasileira. O sistema reúne informações de pesquisas, registros administrativos e outras fontes para representar a geração e a distribuição de renda no país.

A revisão metodológica faz parte de um processo periódico de atualização das Contas Nacionais. Em setembro de 2026, o instituto divulgou novas notas metodológicas relacionadas à implantação da nova série do SCN.

Por que uma atividade ilegal pode entrar no cálculo do PIB?

O PIB mede o valor dos bens e serviços produzidos em uma economia durante determinado período. Para as Contas Nacionais, a classificação de uma atividade não depende exclusivamente de ela ser autorizada ou proibida pela legislação.

A lógica adotada internacionalmente considera que uma transação econômica voluntária entre comprador e vendedor pode ser contabilizada quando existe efetivamente produção, consumo e circulação de renda.

No caso das drogas, por exemplo, há uma operação econômica entre quem vende e quem compra, mesmo que a produção e a comercialização sejam proibidas.

A exclusão completa dessas operações pode provocar distorções em outras partes das contas econômicas. Um exemplo é o cálculo da poupança das famílias: se uma pessoa gasta dinheiro em um produto ilegal, mas essa despesa não é registrada, as estatísticas podem indicar que o valor permaneceu com ela.

Na prática, porém, o dinheiro foi gasto e passou para outro agente da economia. A ausência do registro pode, portanto, gerar uma estimativa incorreta de renda, consumo ou poupança.

O próprio IBGE vem estudando essa questão há alguns anos. As discussões sobre uma metodologia para estimar o mercado de drogas começaram em 2019 e uma primeira estimativa experimental foi realizada em 2021.

A metodologia que está sendo desenvolvida segue referências internacionais, entre elas o System of National Accounts (SNA), das Nações Unidas, utilizado como base para a produção das Contas Nacionais.

Países europeus já adotam procedimentos para estimar atividades econômicas ilegais. O Reino Unido, por exemplo, incorporou estimativas relacionadas a drogas ilícitas às suas Contas Nacionais em 2014. França, Alemanha, Suécia, Holanda, Itália, Espanha e Hungria também utilizam metodologias baseadas nas recomendações europeias.

Como o mercado de drogas será estimado?

O cálculo não deve se limitar às apreensões realizadas pelas forças de segurança. Como o mercado ilegal não pode ser observado diretamente, a metodologia parte principalmente de estimativas de consumo.

A ideia é utilizar pesquisas e diferentes bases de dados para estimar quantas pessoas consomem determinadas substâncias e qual seria o consumo médio.

De forma simplificada, a conta pode ser representada assim:

número de usuários × consumo médio por usuário × preço de venda = estimativa do gasto dos consumidores

Depois dessa primeira estimativa, o IBGE precisa calcular como esse mercado é abastecido. Isso envolve separar, por exemplo, o que seria produzido no território nacional do que entraria no país por meio de importações ilegais.

Também entram no cálculo os custos relacionados à produção e à distribuição. Essas informações são necessárias para chegar ao chamado Valor Adicionado Bruto (VAB), indicador que mostra quanto determinada atividade acrescenta à economia depois de descontados os bens e serviços utilizados no processo produtivo.

A estimativa, portanto, não representa simplesmente o dinheiro movimentado pelo tráfico. O objetivo é aplicar as regras das Contas Nacionais para identificar produção, consumo, renda e valor adicionado relacionados à atividade.

Inclusão não significa legalização

A mudança metodológica não altera a legislação brasileira nem transforma o comércio de drogas em atividade permitida.

O IBGE apenas passa a estimar uma atividade econômica que já ocorre e movimenta recursos, seguindo critérios estatísticos utilizados internacionalmente.

A medida também não significa que o instituto passará a contabilizar automaticamente todos os tipos de crime. O foco anunciado é a mensuração de atividades econômicas que, embora ilegais, envolvem transações de mercado.

Os detalhes da metodologia brasileira ainda estão em desenvolvimento e deverão ser apresentados com a nova série das Contas Nacionais. O IBGE prevê a divulgação dos primeiros resultados dessa revisão em 2028.

Atualmente, o Sistema de Contas Nacionais é utilizado para calcular indicadores como PIB, PIB per capita, produção, consumo, investimento, renda nacional e poupança, reunindo informações sobre diferentes setores da economia brasileira.