O que a infância deixa em nós quando nos tornamos adultos? E de que maneira as lembranças, experiências e imagens que acumulamos ao longo da vida continuam participando de quem somos? Essas são algumas das questões que atravessam “O que permanece em nós?”, exposição individual do artista visual Wendel Fontes, que será aberta na sexta-feira (2), às 19h, com show do Vozmecê, na Galeria Wega Nery, do Centro Cultural José Octávio Guizzo, em Campo Grande. A mostra reúne 21 pinturas e uma instalação sonora, resultado de cerca de três anos de produção e pesquisa do artista.
Produzidas entre 2023 e meados de 2026, as obras partem de imagens do cotidiano para construir cenas em que memória e ficção se encontram. Crianças aparecem em momentos de brincadeira, introspecção e descoberta, mas a representação da infância passa longe de uma abordagem simplesmente nostálgica. Perspectivas distorcidas, objetos deslocados, cores intensas e elementos que parecem pertencer a outras realidades criam situações que convidam o visitante a olhar mais demoradamente para aquilo que parece familiar.
Para Wendel, esse processo também está relacionado à forma como aprendeu a construir suas pinturas. “Eu costumo dizer que trabalho com a lentidão. Eu venho aprendendo cada vez mais a respeitar o tempo de cada trabalho”, afirma. Segundo o artista, a obra se transforma durante sua realização e exige que o processo seja vivido sem pressa. “É preciso desacelerar, deixar o trabalho respirar, entender qual é a questão que precisa ser resolvida”.
Essa relação com memória e transformação também aproxima a exposição da pesquisa musical do Vozmecê, que participa da abertura. Para o músico Pedro Fattori, o grupo trabalha justamente com referências que atravessam formação, infância e território. “A nossa música conversa muito com memória, principalmente porque a gente trabalha bastante com referências que vêm da nossa formação, da nossa infância e do lugar de onde a gente veio”, explica.
A infância, nas pinturas, não aparece apenas como lembrança ou nostalgia. “A imagem da criança aparece mais como uma alegoria. Nossos desejos mais íntimos, o modo como percebemos o mundo à nossa volta, a maneira como lidamos com os desafios que a vida nos impõe e nossas angústias têm suas bases formadas na fase da infância”, observa Wendel.
O artista também trabalha com fotografias próprias, cenas de filmes e imagens encontradas na internet, que são transformadas por meio de colagens, rascunhos e sobreposições. “Acredito que assim também são nossas memórias, são colagens de cenas que guardamos no meio das lembranças. Por isso penso que toda memória tem um pouco de ficção”, reflete.
É justamente essa mistura entre referências e novas experiências que o Vozmecê identifica em sua própria trajetória. O grupo incorpora elementos da música sul-mato-grossense e fronteiriça, como viola, guarânia e chamamé, combinados a sonoridades contemporâneas. “Existe muito essa relação entre o que permanece na gente e o que vai se transformando com o tempo. Quando vimos a proposta da exposição do Wendel, sentimos uma proximidade justamente por isso”, afirma Pedro.
Memória também se escuta

Um dos destaques da exposição é a instalação sonora construída a partir de uma árvore seca de aproximadamente 2,5 metros, com latinhas de alumínio penduradas nos galhos, em referência à brincadeira do telefone sem fio. Por meio delas, o público poderá ouvir relatos de pessoas idosas sobre suas memórias de infância. A árvore, encontrada pelo artista após ser derrubada pelo vento durante uma tempestade, também carrega uma memória própria. “É uma árvore que guarda uma memória, mas que ganhou um novo significado ao ser transformada numa obra”, conta Wendel.
Na abertura, a apresentação do Vozmecê também foi pensada para criar uma atmosfera de escuta. “A gente pensou muito mais em construir uma atmosfera do que simplesmente chegar e fazer um show. Queremos que a música faça parte daquele ambiente, que ela dialogue com o que está acontecendo ali e ajude o público a entrar nesse estado de escuta e de observação”, detalha Pedro.
Para Wendel, essa experiência é um convite para desacelerar diante das imagens e recuperar uma forma de olhar que muitas vezes fica esquecida na vida adulta. “O título da exposição é uma pergunta: o que permanece em nós? O modo como cada um vai responder a essa questão é muito subjetivo”, conclui.
A exposição permanece em cartaz até 30 de outubro, com entrada gratuita. Este projeto conta com investimento da PNAB (Política Nacional Aldir Blanc), do Governo Federal, por meio do MinC (Ministério da Cultura), executado pelo Governo do Estado, através da FCMS (Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul).
Serviço
Exposição “O que permanece em nós?” – Wendel Fontes
Período: 2 a 30 de outubro de 2026
Local: Galeria Wega Nery – Centro Cultural José Octávio Guizzo, Campo Grande (MS), rua 26 de Agosto, 453, Centro
Visitação: 2 a 30 de outubro de 2026: terça-feira a sexta-feira das 8h às 20h, sábado das 8h às 22h e domingo a depender do funcionamento do Teatro Aracy Balabanian;
Abertura: 2 de outubro, com apresentação do Vozmecê, a partir das 19h
Entrada: gratuita
Visitas guiadas e oficinas
Datas: 3, 10, 17 e 24 de outubro
Horário: das 14h às 17h
A programação educativa contará com visitas guiadas pela exposição e oficina de construção de imagem poética, conduzida pela arte-educadora Letícia Maidana, com participação do artista Wendel Fontes. As atividades são gratuitas, não exigem experiência prévia em artes visuais e contarão com recursos de acessibilidade, incluindo intérprete de Libras e audiodescrição das obras por QR Code.




















