Uma pessoa caiu, não responde e não respira normalmente: você saberia o que fazer nos próximos minutos?

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Foto: Divulgação

No Brasil, as doenças cardiovasculares provocam cerca de 400 mil mortes por ano, o equivalente a mais de 1.100 óbitos por dia ou uma morte a cada 90 segundos, segundo dados do Ministério da Saúde e do Cardiômetro da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Entre as situações mais graves está a parada cardiorrespiratória, uma emergência em que os primeiros minutos podem ser decisivos para a sobrevivência.

Ela pode acontecer em casa, no trabalho, na academia ou em um espaço público. De repente, a pessoa cai, deixa de responder quando é chamada e não respira normalmente. Em alguns casos, ainda apresenta puxadas de ar fracas e irregulares, parecidas com um soluço ou ronco. Para quem está por perto, reconhecer esses sinais e saber como agir pode fazer diferença até a chegada do socorro.

O médico Luiz Gustavo Orlandi, diretor e instrutor da CoreHelp, instituição especializada na capacitação para atendimento de emergências, explica que a resposta deve ser rápida.

“Se a pessoa não responde e não respira normalmente, o primeiro passo é chamar ajuda. O SAMU deve ser acionado pelo 192. Se houver alguém por perto, essa pessoa pode fazer a ligação e procurar um desfibrilador externo automático, enquanto as compressões são iniciadas”, orienta.

Se a pessoa estiver sozinha no atendimento, a recomendação é colocar o telefone no viva-voz e seguir as orientações do atendente enquanto presta os primeiros cuidados.

Como saber se a pessoa está respirando

A checagem deve ser rápida. Basta observar o peito e a barriga e verificar se eles sobem e descem de forma regular. Esse processo deve durar no máximo dez segundos.

Para quem não é profissional da saúde, não é necessário procurar o pulso. Se a pessoa não responde e não respira normalmente, ou se houver dúvida, a orientação é considerar uma possível parada cardíaca e iniciar as compressões.

As puxadas de ar ocasionais, fracas e irregulares também não devem ser confundidas com uma respiração normal.

O que fazer até a ambulância chegar

Depois de acionar o socorro, as compressões devem começar imediatamente. A vítima precisa estar deitada de barriga para cima, sobre uma superfície firme, como o chão.

Quem presta o atendimento deve se ajoelhar ao lado da pessoa, colocar a base de uma das mãos no centro do peito e a outra mão por cima. Os braços devem ficar esticados e os ombros alinhados sobre as mãos.

Em um adulto, o peito deve ser comprimido cerca de cinco centímetros, em um ritmo de 100 a 120 compressões por minuto. Depois de cada compressão, é importante deixar o tórax voltar completamente antes de pressionar novamente.

“O objetivo é manter algum fluxo de sangue e oxigênio para o cérebro e outros órgãos enquanto o coração não consegue fazer isso sozinho. Por isso, as compressões precisam começar o quanto antes”, explica Orlandi.

Para quem não tem treinamento, a orientação é manter as compressões até a chegada da equipe de emergência ou até que um desfibrilador esteja disponível.

E se eu machucar a pessoa?

O medo de causar alguma lesão ainda é uma das principais barreiras para quem nunca passou por um treinamento. Fraturas de costela podem acontecer, principalmente em idosos, mas esse risco não deve impedir o atendimento.

Em uma parada cardiorrespiratória, a pessoa corre risco imediato de morte. Sem circulação, o cérebro e outros órgãos deixam de receber oxigênio e, em poucos minutos, podem ocorrer lesões permanentes. Dados citados pela Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo indicam que as chances de sobrevivência podem cair entre 7% e 10% a cada minuto sem atendimento.

“É compreensível ter medo de fazer algo errado, mas, diante de uma pessoa inconsciente e que não respira normalmente, não agir pode ser muito mais grave”, reforça Orlandi.

O desfibrilador pode ser usado por qualquer pessoa?

O desfibrilador externo automático, conhecido como DEA, também pode ser decisivo. O equipamento pode ser encontrado em locais como aeroportos, shoppings, academias, empresas e outros espaços de grande circulação. Apesar de parecer complexo, ele foi desenvolvido para ser utilizado inclusive por pessoas sem formação na área da saúde.

Ao ser ligado, o próprio aparelho orienta o usuário. Ele indica onde as pás devem ser colocadas no peito da vítima, analisa o ritmo do coração e só libera o choque quando realmente há necessidade.

Durante a análise e a aplicação do choque, ninguém deve tocar na vítima. Depois disso, ou caso o aparelho informe que o choque não é necessário, as compressões devem ser retomadas imediatamente.

O que não fazer

Também é importante saber o que evitar. Não se deve perder tempo procurando pulso, oferecer água, jogar álcool na pessoa ou apenas sacudi-la na tentativa de fazê-la reagir. As compressões também não devem ser realizadas com a vítima sobre cama ou sofá, porque superfícies macias absorvem parte da força e reduzem a eficiência do procedimento. Outro erro frequente é esperar a ambulância chegar para só então começar a agir.

Informação e treinamento também salvam tempo

Apesar de as primeiras medidas serem relativamente simples, muita gente ainda não sabe como reagir. Levantamento da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, com 1.765 entrevistados, mostrou que 44% não sabiam acionar corretamente o SAMU. Parte não sabia qual número utilizar e outra parcela indicou telefones incorretos.

Para Denis Corrêa, instrutor da CoreHelp, o dado mostra que primeiros socorros precisam ser discutidos também fora dos ambientes profissionais de saúde. “Qualquer pessoa pode estar ao lado de alguém no momento de uma emergência. Pode ser um familiar, um colega de trabalho ou até alguém desconhecido. Buscar informação antes de precisar dela faz com que a pessoa tenha mais condições de reagir de forma correta quando algo acontece”, afirma.

Instituições como a CoreHelp, por exemplo, oferecem capacitações tanto para profissionais da saúde quanto para pessoas sem formação na área. Cuidadores de idosos, professores, profissionais de academias, trabalhadores de empresas, pais, familiares e pessoas que simplesmente querem estar mais preparadas para uma emergência podem buscar esse tipo de treinamento.

“Existe uma ideia de que cursos de primeiros socorros são apenas para médicos, enfermeiros ou socorristas, mas esse conhecimento pode ser útil para qualquer pessoa. Ninguém sabe quando poderá se deparar com uma parada cardíaca, um engasgo, uma queda ou outra situação grave”, destaca Denis.

Nos treinamentos práticos, os participantes podem aprender e repetir procedimentos em manequins, conhecer o funcionamento do DEA e simular situações de emergência. A proposta é fazer com que o conhecimento deixe de ser apenas teórico e possa ser lembrado com mais facilidade quando necessário.

“Ler e buscar informação já é importante, mas a prática permite entender a sequência do atendimento, corrigir erros e ganhar segurança. Quando a pessoa treina, ela tende a reagir com mais clareza diante de uma situação real e aí pode estar a diferença entre salvar ou não a vida de uma pessoa”, completa.